As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mix Brasil (1)/Outra série, para dar conta da diversidade

Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2018 | 12h47

Sai o Festival do Rio e começa o Mix Brasil, que, em sua 26.ª edição, realiza-se num momento estranhíssimo da vida pública brasileira. O Festival de Diversidades vai apresentar muita coisa boa, a começar pelo filme de abertura, Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla, com Linn da Quebrada. Não pude ir ao Festival de Berlim, em fevereiro – estava no auge da crise do meu joelho -, mas acompanhei, à distância, pela própria assessoria de imprensa do evento, o triunfo do cinema brasileiro justamente pelos filmes de temática LGBT. Bixa Travesty venceu o Teddy Award na categoria documentário, Tinta Bruta, da dupla gaúcha Márcio Reolon/Filipe Matzembacher, na de ficção. Bixa Travesty é visceral na discussão dos novos corpos, das novas possibilidades de identidades e no estranhamento de nossos conceitos estabelecidos do que é ser homem/mulher no mundo contemporâneo. Tem gente que vai achar tudo isso bobagem, quando não coisa do Diabo. O presidente eleito diz que a questão de gênero se resolveria se os pais aplicassem corretivo nos filhos com ‘tendências’. Pode? No âmbito do Mix Brasil, a cura gay está fora de questão e o que artistas/performers/autores buscam é a liberdade dos corpos, de ser, de amar, de constituir famílias. Um dos mais belos momentos da cerimônia de premiação do Festival do Rio foi a outorga do prêmio Félix ao advogado da associação que reúne famílias trans e homos. Subiram ao palco ele, o companheiro e o filho, todos muito felizes, por que não? O Mix Brasil exibe filmes brasileiros e internacionais – são 110, ao todo – e eu quero chamar a atenção sobre alguns. Não li a matéria de Guilherme Genestreti na capa da concorrência, mas vi que ele destaca Tinta Bruta e o francês Faca no Coração, de Yann Gonzalez, com a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis. Não me sinto muito animado para rever Faca no Coração, que é plástico e tem muita safadeza – a rodagem de um filme pornô dentro do filme, um assassino à solta -, mas me pareceu talvez o pior filme da competição de Cannes neste ano. Aliás, a grande dúvida, minha e da maioria da crítica, era justamente sobre a presença do filme na seleção que disputava a Palma de Ouro. Seria, quem sabe, só uma forma de dar continuidade à temática LGBT e às metáforas da aids do ano anterior, com 120 Batimentos por Minuto, que o presidente do júri, Pedro Almodóvar, queria premiar com a Palma, mas foi atropelado por seu jurado insubordinado, Paolo Sorrentino, e quem levou foi The Square. Pensando bem, talvez valha rever Faca no Coração porque a fonte que alimenta Gonzalez é o ‘giallo’, o policial italiano, com seus assassinatos gráficos de belas mulheres, aqui substituídas por homens, e muitos deles garotos. Vanessa faz uma diretora de filmes gays – um deles se chama Homocida -, que foi dispensada pela companheira montadora de seus trabalhos e agora, em crise, amarga duplamente a fossa e a dura labuta de terminar um filme cujos integrantes estão sendo brutalmente eliminados – por que e por quem? Tergiversações à parte, sou muito mais o Gustavo Vinagre, de Lembro Mais dos Corvos, que vi em Tiradentes, em janeiro, e pelo qual a trans Julia Katharine ganhou o Troféu Helena Ignez. Enfim, o Mix Brasil está começando e vai até 25 no Centro Cultural São Paulo, IMS, Cinemateca, CineSesc e Cine Olido. Tem muita coisa boa e ainda toda uma programação paralela de shows, oficinas e debates. Estou abrindo outra série para dar conta de tanta diversidade.