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Mix América/Keep shooting

Luiz Carlos Merten

16 de novembro de 2019 | 09h44

Faço uma pausa no Mix Brasil para dar conta de um sentimento que tive. Fui na quinta pela manhã à cabine de imprensa de Midway – Batalha em Alto-Mar e tenho de admitir que, surpreendentemente, gostei muito do Roland Emmerich. É um diretor europeu – alemão -, americanófilo até a medula, que faz filmes disparatados. Stargate, Independence Day, Godzilla, O Dia Depois de Amanhã, Independence Day – O Ressurgimento, etc. Em meio a todas essas extravagâncias hollywoodianas, ele fez Anônimo, fantasiando sobre a real identidade de Shakespeare e eu achei o filme bem legal, embora todo mundo caísse matando por ele tratar, realisticamente, o que não deixava de ser só uma especulação. Pouco antes, Quentin Tarantino havia feito Bastardos Inglórias, tomando todas aquelas liberdades com a história (real) que repetiu depois em Era Uma Vez… em Hollywood. Ele pode, é isso, e outros não? Detesto essa coisa de dois pesos e duas medidas, portanto… Midway me encantou e fiz esse título – Mix América – para confundir com o Mix Brasil. Midway deveria ter aberto o evento em São Paulo porque, em tempos de celebração da diversidade,m nada me pareceu mais radical que uma fantasia hetero dirigida por um gay. Emmerich celebra a amizade, a lealdade e o heroísmo de machos, constrói uma ode ao casal hetero – a mulher é deslumbrante, mas dentro do conceito da ordinary woman, cujo modelo histórico é Olivia De Havilland – e o faz num filme de guerra que não demoniza o inimigo japonês e tem um olhar interessante para certos detalhes. Numa cena, Ed Skrein, o superbofe, está colocando as filhas para dormir. Fui pesquisar e ele fez uma temporada de Game of Thrones e depois foi substituído sem que uma explicação fosse apresentada. Na tal cena, a menininha está abraçada a uma boneca negra, e esse é o tipo do cuidado que tem bem a cara de Roland Emmerich. Anos atrás participei de um daqueles eventos da Sony no México. Ele lançava um de seus blockbusters. Houve uma festa no hotel. Os homens mais belos do planeta – da galáxia -, seminus, serviam como garçons, mas eram atores, porque de repente estavam fazendo performances. Sodoma e Gomorra, viadagem ao cubo, e bancada por Emmerich, que circulava com o namorado, king of the world!, esfregando sua homossexualidade na cara dos executivos da indústria. Faço os filmes que vocês querem, faturo, mas sou assim, e não vou mudar pra salvar a cara de ninguém. Emocionei-me de verdade com Midway, e o filme ainda presta homenagem a John Ford, lembrando que ele, com um grupo de cineastas – os cinco de Hollywood -, foi filmar a guerra no Pacífico e o avanço na Europa. Ford ganhou quatro vezes o Oscar de direção – por O Delator, Vinhas da Ira, Como Era Verde o Meu Vale e Depois do Vendaval -, mais o de melhor documentário, por A Batalha de Midway. Cinco! Na ficção de Emmerich, Ford é tão heróico quanto o glorioso piloto Ed Skrein. Em meio a um ataque, em vez de buscar a segurança do abrigo, Ford salta para a linha de tiro, comandando seu operador, com a câmera na mão. Keep shooting, grita. Shoot=filmar, disparar. Não posso ser só eu a ver essas coisas, mas talvez seja, porque o olhar para a diversidade é tão direcionado que, muitas vezes, outras pessoas talvez não consigam divisar o que está na cara.

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