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Mitos e monstros, ou o impacto de uma segunda morte

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2016 | 07h14

PARIS – Morreram Umberto Eco e Harper Lee. Ainda em Berlim, Mariana Morisawa me havia falado da morte dos dois, mas terminei me esquecendo. Lembrei-me por causa de um texto que li ontem no Le Monde. Eco – semiólogo, romancista, filósofo. Confesso, e pode ser guilty pleasure, que sempre tive imenso prazer vendo O Nome da Rosa, de Jean-Jacques Annaud, mas o que encontrei no Le Monde, que reproduzia o Corriere della Sera, foi uma nota dando conta de que o jovem Eco foi figurante de Michelangelo Antonioni na cena da festa de A Noite, episódio intermediário na trilogia que integra A Aventura (o começo) e O Eclipse (o desfecho, já que não se pode falar em ‘fim’, propriamente dito). Quanto a Harper Lee, deve sua fama a To Kill a Mockingbird, que ganhou o Pulitzer e virou filme de Robert Mulligan – O Sol É para Todos. Harper viveu sempre reclusa, recusando-se a falar sobre sua obra-prima e só no ano passado, mais de meio século depois, foi publicado seu segundo livro, Go Set a Watchman. Na verdade, até onde sei – porque esse segundo livro não li -, é um rascunho do primeiro, que havia sido dado como perdido. Não bem um rascunho, mas uma sequência, relatando acontecimentos posteriores, escrita antes. Sérgio Augusto, um dos raros caras a quem respeito nesse negócio do cinema – mesmo não concordando, muitas vezes, com ele -, escreveu um texto no Aliás esculhambando com O Sol É para Todos, o livro e o filme. Comecei a ler, mas parei. Preferi ficar com minha lembrança do livro, e de Gregory Peck como o advogado Atticus Finch, que dá lições de civilidade aos filhos naquela racista cidadezinha do Sul dos EUA. Por mais que, eventualmente, possam ser criticados, Umberto Eco e Harper Lee pertencem à esfera dos mitos. Tenho lido o Le Monde no café da manhã, e a edição de hoje me trouxe uma notícia que, mais do que chocar, me entristeceu. Era jovem quando vi, em Porto Alegre, Mon Oncle Antoine, que foi dos meus primeiros contatos com o cinema quebecois. Sempre ouvi falar de Claude Jutra como uma figura histórica do cinema canadense de língua francesa. O grande diretor da nouvelle vague du Québec. Nos anos 1980, ele se suicidou, jogando-se de uma ponte ao descobrir que sofria de Alzheimer. Claude Jutra também virou mito e seu nome – Jutra – foi dado ao Oscar canadense. Há pouco mais de uma semana – no dia 15 -, saiu no Canadá uma biografia dando conta de que era pedófilo. Rumores, nesse sentido, sempre o acompanharam. Homossexual assumido, gostava de cercar-se de adolescentes, aos quais seduziria com suas gentilezas. Nunca houve relato de brutalidade. Mas, agora, no fim de semana, surgiu, finalmente, o depoimento de uma de suas vítimas. Rapidamente, Jutra foi execrado e está sendo expurgado. A Academia Canadense de Cinema busca um nome provisório para o prêmio que será outorgado em março e o governo já decretou que todas as ruas e todos os parques que levam seu nome no país serão rebatizados. Não estou contestando a acusação. Pedofilia é coisa gravíssima e, segundo o relato, Claude Jutra abusava do garoto desde os 6 anos. O horror dessasegunda morte. A maior tragédia humana – de perto ninguém é normal? Todos aqueles belos filmes eram obras de… um monstro?