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MIT (4)/Silvia Calderoni e a subversão do corpo andrógino

Luiz Carlos Merten

25 de março de 2019 | 00h00

Não vi tantas peças da Mostra Internacional de Teatro quantas gostaria. Perdi Isto É Um Negro? e Partir com Beleza, que, a partir das informações no catálogo, talvez fossem as que mais gostaria de ver, mais até do que as de Milo Rau. Mas vi hoje, no Teatro João Caetano, o solo da italiana Silvia Calderoni, MDLSX. Montado a partir de vídeos que evocam a infância e juventude da atriz e enriquecido por fragmentos autobiográficos e evocações literárias, o espetáculo, musicalmente muito forte, constrói-se sobre o corpo trans de Silvia, que, desde criança, provocou sempre estranhamento e também preconceito por sua androginia. O que ocorre com quem não se enquadra no comportamento binário e desafia/subverte os códigos de gêneros? Não sei dizer quanto gostei de MDLSX, mas saí do teatro impactado. Havia encontrado Denise Jancar, que mora em frente e me orientou como sair dali, se não conseguisse táxi. Na outra vez, nem lembro qual era a peça, tomei o caminho errado e fui parar na 23, andando a esmo – de madrugada – e de bengala! Dessa vez, tomei a direção inversa e fui até a Domingos de Morais, onde ali, dobrando a esquina, estava o metrô Santa Cruz, tudo muito fácil. E fui ruminando, pensando. Teatro documentário, performático, uma celebração do corpo sem rótulo. Homem, mulher, Silvia pode ser, e é, tudo. Fiquei tocado e não pensem que ter uma má formação física, como tenho, não me torna alvo de um olhar discriminador. De alguma forma pude me identificar e não apenas avaliar intelectualmente os manifestos transfeministas e queer de que se valem a atriz e a dupla de diretores, Enrico Casagrande e Daniela Nicolò, ela, responsável também pela dramaturgia. MDLSX terminou tout en beauté, para mim, a 6.ª MITSP. Já estou fazendo planos para voltar a Santiago, em janeiro de 2020, para o Santiago a Mil. E, depois, se tudo der certo e eu ainda estiver rodando por aí, quem sabe não verei mais coisas na próxima MIT?