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MIT (3)/Colonialidade em discussão

Luiz Carlos Merten

22 de março de 2019 | 13h11

Havia tentado ver Cinco Peças Fáceis, a segunda montagem de Milo Rau na Mostra Internacional de Teatro. Mas choveu e eu fiquei preso no trânsito, tentando chegar ao Teatro Sérgio Cardoso. Vi ontem Compaixão – A História da Metralhadora, com os solos de duas atrizes excepcionais, Consolate Sipérius e Ursina Lardi. Como sempre, o tema de Rau é o estado do mundo, que o encenador suíço investiga a partir do seu Institute of Political Murder. Teatro documentário, com o pé na realidade e a sua linguagem que funde teatro e cinema. Estou gostando muito dessa coisa que só Rau faz. O telão amplia a ação/fala do ator, da atriz no palco e, de repente, viram duas ações. Em Compaixão, Ursina sai do palco, mas continua seu discurso no telão. A essência do método de Milo Rau está nessas rupturas, que de alguma forma me lembraram (prosseguem?) os cortes secos de Christiane Jatahy. Gosto muito das encenações de Christiane, mas justamente a mais recente me decepcionou, seu Ulisses e o difícil retorno a Ítaca, que não me levou a lugar nenhum, exceto a pirotecnia da água e dos efeitos, tão performáticos quanto o grande sertão da instalação de Bia Lessa. Como todo o público que saía ontem do Sesc Vila Mariana recebi um folheto com críticas do espetáculo de Rau. Dei uma olhada e uma delas desautorizava a montagem como não crítica à colonialidade, pelo visto agora não se diz mais colonialismo. Não concordei. Compaixão abre-se com o monólogo de Consolate, africana de Burundi, que conta como viu os pais serem mortos na sua frente – por uma rajada de metralhadora nas disputas entre hutus e tútsis – e depois foi adotada por um casal de belgas, sendo a atração, a única negra, na pequena cidade. O monólogo seguinte, mais longo, é o de Ursina, eurocêntrica, que lembra sua experiência numa ONG, na África, quando aumentava o volume do gravador – Beethoven! – para não ouvir os gritos dos massacres. Consolate e Ursina, duas visões, a africana e a européia. A esperança, a compaixão, vem da primeira, quando Ursina encerra seu monólogo e Consolate recomeça. Ser criança, sobrevivente, na África. Na crítica que li, en passant, Milo Rau é chamado de cínico e marqueteiro, estimulando a indignação leve e risonha da plateia, impotente estética e politicamente para tomar consciência da tragédia da colonialidade. Não foi isso que senti, e até me pergunto se o problema, da ‘crítica’, não é a falta de humor, ou a compreensão do que sejam ironias e metáforas. Esse tipo de ‘descolamento’ sinto muito mais nas encenações espetaculares e vazias de Bob Wilson, quando por aqui aporta – o seu Garrincha. Estava preocupado sobre como sair do Sesc Vila Mariana. É duro pegar táxi ali sem aplicativo. Neusa Barbosa e Luiz Vita me deram carona e eu peguei um táxi na Pedroso, indo jantar no Frevinho da Augusta, onde, vejam só, encontrei Felipe Hirsch, que me deu notícia de uma mudança de planos. O filme com Alice Braga fica para 2020, ele faz outro, antes, encarando a questão fundiária no Brasil em Fazenda. Latifúndio, agronegócio, Felipe vai mexer no vespeiro. Considerando-se que o agronegócio está movendo a economia, mas a que preço- envenenamento, desmatamento, etc -, ele sabe que vai tomar porrada. Boa sorte, amigo – estarei torcendo.