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MIT (2)/As perturbadoras galinhas de O Alicerce das Vertigens

Luiz Carlos Merten

17 de março de 2019 | 11h09

Fui ver ontem o congolês Dieudonné Niangouna na MT, O Alicerce das Vertigens. Encontrei Daniel Shenker, Evaldo Mocarzel e Adriana Monteiro. A par de tudo aquilo que propõe, a Mostra Internacional de Teatro é sempre um ponto de encontro. Niangouna, nascido em Brazzaville, fundou há mais de 20 anos a Compagnie Les Bruits de la Rue. Gostaria de ter ficado para o debate, após a apresentação, mas não deu. Meu dia havia sido intenso. Pela manhã fui ao Centro cortar cabelo e comprar ingressos no Sesc da 24 de Maio. (Além da MIT, comprei para hoje, para ver a Maria Padilha, Diários do Abismo.) Almocei com Lúcia e Fabí, e minha filha fez um delicioso arroz com polvo, que comi regado a vinho. Dos deuses. Queria ver Suprema, mas não consegui encaixar sala nem horário, até porque me vi, de repente, no Centro, no meio de um trio elétrico – o carnaval não termina nunca, mas as palavras de ordem do cortejo eram políticas. Depois da peça, jantei e cheguei em casa a tempo de ainda ver metade de Lion. Amo o longa de Garth Davis e não me canso de revê-lo. Tem um lado meio institucional, no desfecho, a ong que trabalha com crianças de rua, a ferramenta da internet que permite ao garoto achar sua família. Limpado (desses excessos? Dessas fragilidades?) creio que talvez seja o mais belo filme sobre o retorno ao lar, tema clássico de Hollywood. Nicole Kidman foi indicada para o Oscar de coadjuvante e perdeu, nem lembro para quem, mas é excepcional. A cena da briga em família, na refeição, à mesa. A conversa com Saroo, quando ela explica por que, podendo ter filhos, preferiu adotá-lo. Nesses momentos, Nicole me parece a melhor atriz do mundo. O reencontro de Saroo com o irmão, Guddu, que morreu, e por isso o deixou esperando naquela estação. Saroo faz seu luto reencontrando Guddu naquela brincadeira nos trilhos. Choro sempre de soluçar, vendo Lion. Também eu estou querendo voltar para uma casa perdida no tempo e no espaço, que nem sei onde fica. Tentando reencontrar, me reencontrar. Tanta coisa me foi tirada, roubada. Tinha um amigo, o Luiz, que costumava dizer, filosoficamente – fazer o quê? Re-co-me-çar? Toma tempo. Cada um tem sua fase de luto. A todas essas, a dor física – no joelho – voltou. Carlos, o físio, anda mais preocupado que eu. O joelho parece que vai pegar fogo, de tão quente. Processo inflamatório – como? Do quê? Volto à MIT. Queria ter assistido ao debate porque existem coisas que me desafiaram e para as quais não encontrei respostas em O Alicerce das Vertigens. Niangouna usa a família para abordar a herança colonial no antigo Congo Belga. Dois irmãos, o pai, o tio. A chegada da democracia, O tumulto, a terra (sempre) em transe. A territorialidade – se o mundo, como o conhecemos, implode, qual é nosso novo lugar no novo mundo? O público e o privado, o íntimo e o épico. Gostei de ver como, com poucos elementos, poucos atores em cena, Niangouna – ator, autor, diretor – consegue dar conta das transformações. Os ruídos da rua. Não sei se o assunto apareceu no debate, mas esbarrei nas galinhas. Niangouna mostra, nas telas que circulam pelo palco, imagens das galinhas sendo mortas, suas entranhas sendo reviradas. Mostra-as soltas, vivas. Gabriel Vilela, que cria galinhas em Minas, diz que adora vê-las porque galinhas, que têm o cérebro do tamanho de uma ervilha, são as mais burras dos animais. (Ave é tecnicamente um animal?) Não voam. Limitam-se a estar – ciscar e chocar. Até que ponto as galinhas têm a ver com as pessoas em O Alicerce das Vertigens, ou são apenas a representação de uma economia tribal, primitiva, que visa atender às necessidades mais básicas? O bom da MIT é quando nos confronta com outras culturas, outras formas de narração. Milo Rau pergunta-se, em História(s) do Teatro (I), A Repetição, como se começa e termina uma peça, uma montagem? Gostei demais como Niangouna termina a montagem dele.