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MIT (1)/Milo Rau e sua abordagem multimídia da violência do mundo

Luiz Carlos Merten

15 de março de 2019 | 00h43

Estou voltando para casa depois de assistir à abertura da 6.ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Reencontrei amigos queridos, Cacá Toledo e Ivan Andrade, que me deram notícias de Gabriel Vilela. Ele está em BH, vai montar O Auto da Compadecida com um jovem coletivo de lá. O Auto! Imagino que vá ficar muito bom, e já me vejo tendo pretexto para viajar às Gerais. Mas de tanto ver Gabriel planejar o seu Henrique IV, o seu Hamlet, só posso lamentar que ele ainda não tenha levantado recursos para suas montagens de Pirandello e Shakespeare. A MIT começou com atraso. Foi curioso rever no palco Eduardo Saron, do Itaú Cultural, e Danilo Santos de Miranda, do SESC, que no início da semana ladearam Amir Labaki no lançamento do 24.º É Tudo Verdade. Sem Danilo não existe cultura em São Paulo, mas o sistema S, como tudo o que se refere a educação e pensamento crítico, está ameaçado no atual governo. Por isso mesmo foi estranhíssimo ver o secretário de Estado da Cultura fazer um discurso digno de oposição, mas que não enganou ninguém. Sá Leitão teve as vaias que merecia, e foi saudado com gritos de ‘Fora, Dória!’ Mais sorte teve o secretário Municipal, que também ia tomar porrada, mas virou o jogo ao anunciar que, nesta sexta, 15, assina o edital de Fomento ao Teatro da Prefeitura, e terminou aplaudidíssimo. E veio a montagem de Milo Rau, artista homenageado desta edição da MIT. A Repetição, História(s) do Teatro (I) baseia-se num caso de homofobia em Liège, na Bélgica, em 2012. Na saída de uma festa, um jovem homossexual de ascendência marroquina entrou num carro e foi espancado até à morte por quatro homens. Rau é suíço e, em 2007, fundou o o International Institute of Political Murder, que se dedica à abordagem multimídia de conflitos históricos e sociopolíticos reais. O assassinato de Ihsane Jarfi é reconstituído no palco utilizando recursos de teatro e cinema. Imagem e palavra, Jean-Luc Godard. Civilização e barbárie. De cara o ator, autor entra e inaugura a cena fundadora. Indaga-se sobre o que faz ali, sobre o que é encenar, representar? como um ator se investe do personagem? E, no final, o ator que faz Ihsane realiza o movimento inverso. Pergunta como se encerra uma peça? Adorei a metalinguagem, potencializada por um diálogo muito interessante entre palco e tela. Não há exatamente sincronicidade entre uma e outra. O que a tela expõe não é exatamente o que está sendo filmado no palco. Entre um e outra abre-se um espaço para a conceituação/discussão do que seja o realismo. A MIT iniciou-se com uma homenagem a Marielle Franco. Presente! Milo Rau não estaria engajado num projeto como o do IIPM se não soubesse o que se passa no Brasil. (Jair) Bolsonaro é citado textualmente duas vezes durante o espetáculo. A plateia prorrompe em gritos, risos, aplausos. São apenas dois meses e meio de governo e o coiso não engana mais nem quem o elegeu. Estamos pagando caro e, pelo visto, vamos pagar ainda mais caro por esse ódio ao lulopetismo. Nesta sexta – já passou da meia-noite – faço uma pausa na MIT para ver o Felipe Hirsch no Sesc Consolação. Fim. Que tipo de (re)começo estrará nos propondo o Felipe? No sábado – amanhã – espero estar de volta à Mostra. E viva o teatro!

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