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Mistério Resnais

Luiz Carlos Merten

02 de março de 2014 | 17h49

Henri-Georges Clouzot intitulou Le Mystère Picasso seu documentário sobre o grande artista cubista. Seu ponto era que havia um mistério que dava significado e transcendência à criação de Picasso. Havia também um mistério Resnais. Já tentei abordá-lo, rapidamente, no post anterior. A questão da autoria virou a pedra de toque do cinema dito artístico, nos últimos 50 ou 60 anos. Ela praticamente inexistia em Hollywood, na era de ouro do cinema industrial. Houve até uma controvérsia se Cidadão Kane, o clássico de Orson Welles, seria uma obra do diretor ou do roteirista Herman Mankiewicz. O sistema industrial valoriza o team, a equipe, em que as contribuições individuais se somam pelo bem maior – contar a história. Foi na França, e muito (embora não exclusivamente) em Cahiers du Cinéma, que a questão da autoria se impôs, mas dentro de uma discussão paradoxal. Os críticos da revista queriam provar que os diretores, mesmo quando contratados ou impostos pelo estúdio, mesmo sem escolher o roteiro nem o elenco, eram os verdadeiros autores dos filmes. Au cinéma, dizia Michel Mourlet, tout est dans la mise-en-scène. O mesmo roteiro, filmado por dez diretores, daria dez filmes diferentes pela simples escolha que eles fariam do plano, e da colocação do ator no espaço. Resnais nunca escreveu um roteiro. Pode-se imaginar que ele os discutisse com seus colaboradores e é famosa a história de Marguerite Duras, que queria que ele a ensinasse a escrever para roteiro em Hiroshima, Meu Amor, e Resnais a exortava a fazer, cada vez mais, literatura. A curiosidade é que o próximo filme seria o primeiro (único?) com roteiro de Resnais, e só dele. Numa época em que os diretores brigam pelo reconhecimento expresso na frase ‘um filme de…’, Resnais exigia apenas, como no inédito Amar, Comer, Cantar – que a Imovision bem deveria lançar imediatamente -, a prosaica fórmula ‘réalisation: Alain Resnais’. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, pega carona em Bachelard para dizer que, após a leitura, começava a obra de leitura. Resnais elucidava o texto, penetrava em seus mistérios e só então se dedicava à sua transformação em imagens e sons. Quando iniciava a filmagem, disse-me sua mulher, Sabine Azéma, o filme já estava pronto em sua cabeça, perfeitamente decupado. Ele filmava praticamente só o que ia usar. Não desperdiçava. Quase não sobrava material, após suas montagens. Nuit et Brouillard, seus documentários sobre pintores, sobre a biblioteca de França (Toute la Mémoire du Monde). Sua ficção sobre a bomba. ‘Tu n’as rien vu à Hiroshima…’ Pertenço a uma geração que viu, mais ou menos próximos, filmes como Hiroshima, Acossado, A Doce Vida, Rocco e Seus Irmãos. Eram descobertas constantes – bem diferente dos espectadores que hoje continuam (re)descobrindo esses filmes, mas que os veem já avalizados pela reputação de que dispõem. Eu amava Resnais, o antigo mais que o atual, mas me encantava a leveza com que tratava de temas sérios, graves como a morte. Hiroshima, nesse momento, está passando na minhas cabeça. E não só as imagens – o tempo e o espaço de Nevers, de Hiroshima. A trilha, composta por dois diferentes compositores. No ano passado, revi Hiroshima, Mon Amour em Cannes Classics, em presença de Emmanuelle Riva. Ela confessou que há muito tempo não revia o filme. Arriscou, antes da sessão, que não teria envelhecido. No final, emocionou-se. O filme estava tão adiante de sua época que permaneceu intacto. Daqui a pouco tem Oscar. Me desculpem, mas neste momento me parece irrelevante quem vai ganhar. Minha cabeça está não apenas em Hiroshima, mas nos meus 16 ou 17 anos, quando vi o filme pela primeira vez.

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