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Miscelânea

Luiz Carlos Merten

04 de agosto de 2014 | 09h16

Jantei ontem com meus amigos Dib Carneiro, Gabriel Villela e Cláudio Fontana e foi ótimo. Conversamos sobre o que é teatro, tema de meu post anterior, e eu tinha o interlocutor perfeito. Gabriel e Cláudio foram a Paris e Londres e, de lá, para a Escandinávia. Oslo, Farö, a ilha de Ingmar Bergman, e a cidade em que nasceu Ingrid Bergman. Boa comida, bom vinho, bom papo. Havia visto à tarde Aos Ventos Que Virão, e aqui abro um parêntese. Na semana passada, assistindo à cabine de Como na Canção dos Beatles, chamou-me a atenção o cartaz com o nome de Rui Ricardo Dias, o ator que fez Lula tão bem no filme de Fábio Barreto. Só depois foi que vi que era de Hermano Penna, e só ontem, na cena inicial – o sacrifício do boi santo -,. foi que a imagem me bateu e… Já vi! Preciso agora pesquisar para ver em que festival devo ter visto o filme? Terá sido no Rio?  Importante foi que gostei de ter (re)visto. Comprei ontem na banca do Conjunto Nacional duas revistas de cinemas de língua inglesa. Para mim, Cinema Scope e Film Comment andam dando um baile nas revistas francesas. Em geral, coleciono e não leio,. coisa de maluco obsessivo, sei. Mas essas são diferentes. Cinema Scope está sempre atrás do cinema mais autoral e investigativo da própria linguagem. Sua cobertura de Cannes privilegia Godard (Adieu au Langage), Lisandro Alonso (Jauja), Alice Rohrwacher (The Wonders/Le Meeraviglie) e Nuri Bilge Ceylan (Winter Sleep). Film Comment praticamente ignora o filme turco que ganhou a Palma de Ouro do júri de Jane Campion. Cinco de seus críticos fazem suas listas de top ten na Croisette e Lisando aparece em duas, Godard em todas e Ceylan em nenhuma. Em compensação, os críticos de Film Comment adoraram, Timbuktu, de Abderrahmane Sissako; e Clouds of Sils Maria, de Olivier Assayas, presentes em todas as listas; e Mr. Turner, de Mike Leigh, em quatro. Confesso que vou ter de rever Mr. Turner. Irrito-me com facilidade no cinema de Mr. Leigh, que tem uma visão caricatural dos próprios ingleses que me desagrada, embora, sendo um deles, ele deva saber do que está falando. Mas o que quero deixar registrado agora é o seguinte – recebi um pacote do Cinsesc. Abri e era o catálogop de uma mostra organizadas por meu amigo Sérgio Leeman. Todo (Sam) Peckinpah. Como? De 14 a 23 de julho, imediatamente antes do Festival de Cinema Latino-americano, que me levou quase todo dia à sala da rua Augusta. Procurei nos meus e-mails e não achei nada. O povo do guia, o Divirta-se, também não me falou nada no jornal. Teria adorado rever Peckinpah na tela grande, mas, já que isso foi impossível, li com atenção alguns textos que compõem o volume/catálogo da mostra. A entrevista de Peckinpah à Playboy estava no meu imaginário e os textos analíticos de que mais gostei foram de uma mulher, Julie Kirgo, dando conta da complexidade de Major Dundee/Juramento de Vingança e Straw Dogs/Sob o Domínio do Medo. Kirgo destrói a balela do Peckinpah chauvinista. Seu texto ‘Sam era uma mulher: um argumento contra a misoginia de Sam Peckinpah’ devia ser enfiado goela abaixo de todas as falsas feministas e seus acólitos gays (sorry) que nunca entenderam, ou nem se preocuparam em entender o dilaceramento interno de um dos grandes artistas rebeldes do cinema (e que foi massacrado pela máquina de Hollywood). Curioso é que vi outro dia na TV o remake de Straw Dogs, que é horroroso, e vendo o filme pensava – mas não era assim em Peckinpah. O grande Sam! Depois disso, só me resta acrescentar que, nos últimos dias, zapeando, peguei lá pelo meio O Retorno do Rei, o opus final da trilogia O Senhor dos Aneis, e vi até o fim sem nem piscar não uma, mas duas vezes. O curioso é que cada vez que revejo a trilogia descubro coisas, possibilidades de releituras que em intrigam e encantam. E é isso, creio, é a arte.

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