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Mirada (3)/Fantástica, a chilena que vira árvore no palco

Luiz Carlos Merten

16 Setembro 2018 | 11h06

Pelo que pude perceber, no pouco que vi do Mirada, há uma crise da dramaturgia. Crise pressupõe crítica. A grande questão é que o teatrão (tradicional) não está dando conta de representar o mundo. Os artistas estão querendo colocar em cena, de forma quase documentária, as questões que nos afligem – econômicas, políticas, sociais. Os limites do palco estão sendo questionados, senão abolidos. E o que é, como é, documentário no teatro? Estou até agora tentando entender o que vi no espetáculo do Chile, Estado Vegetal. Direção de Manuela Infante, dramaturgia de Manuela Infante e Marcela Salinas, interpretação de Marcela Salinas. Um monólogo. Sozinha em cena, no palco do Teatro Brás Cubas, Marcela apresenta, de diversos pontos de vista, a história do acidente envolvendo um motociclista e uma árvore. Dar voz à árvore? Refletir sobre a inteligência das plantas? E, inversamente, questionar o estado vegetativo – a alienação – em que vivem os humanos? No palco, a mulher que vira árvore. Meus acompanhantes não resistiram a fazer piada. Teriam podado alguns galhos do espetáculo, diminuindo sua duração. Dura 80 minutos e eu fiquei em choque com aquela mulher em cena. Diminuir me parece que seria tentar tornar o espetáculo palatável, ajustá-lo a normas de conforto para o público. Se me dissessem que Marcela Salinas é alienígena, teria acreditado. Nunca vi nada parecido com a expressão corporal e vocal dessa atriz. Depois da Mulher Fantástica que deu o Oscar para Sebastián Lelio, outra mulher fantástica do Chile?