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Minhas viagens no tempo

Luiz Carlos Merten

25 de março de 2014 | 09h45

Havia perdido a junket de Entre Nós, quando se reuniram em São Paulo os diretores Paulo e Pedro Morelli e o elenco admirável do filme. Não é uma palavra que use com frequência – admirável. Quando a utilizo, me vem a figura mítica de P.F. Gastal, o decano da crítica gaúcha. Gastal, que também se assinava Calvero, como o personagem de Charles Chaplin em Luzes da Ribalta, não tinha outra definição para os filmes que amava. Ad-mi-rá-vel. Digno de admiração. Comecei minha manhã numa conference call com os Morelli. Falamos do filme, do roteiro, da direção e daqueles atores. Revisitamos referências de multiplots – As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, e O Reencontro/The Big Chill, de Lawrence Kasdan. Fiquei aqui viajando na lembrança do filme de Kasdan – 31 anos, já! Sete amigos se reúnem para o funeral de um colegas de universidade que se matou. Nós que nos amávamos tanto…O que restou de nossos sonhos… O Reencontro se inscreve numa leva de filmes que, no alvorecer da era Ronald Reagan, discutiam a herança hippie, o sonho de paz e amor, dos anos 1960. Não se tratava de discutir só o passado. Outros diretores reuniam grupos de jovens para antecipar o que seria o futuro. Gosto demais de Entre Nós e, embora Carolina Dieckman seja a coisa mais linda do mundo – e muito boa atriz -, embora Caio Blat continue ousando e se arriscando, me amarro na cena de Paulo Vilhena e Martha Nowill. Vai ser um lançamento médio, 120 salas, mas grande, considerando-se o perfil intimista de Entre Nós, mesmo que ali dentro exista um suspense psicológico bem estruturado, sobre um certo livro que… Vocês poderão ver o filme a partir de quinta, espero que o vejam. Misturando alhos com bugalhos, revi ontem de manhã Capitão América 2 – Soldado Invernal, de outra dupla. Os Morelli são pai e filhos, os Russo são irmãos – Anthony e Joe. Vieram da comédia, e o filme tem humor, mas o que me encanta em Capitão América 2 é amizade dos dois antagonistas e a cena, breve mas extraordinária, em que Chris Evans, de volta ao seu antigo campo de treinamento, vê passar o garoto franzino que ele foi, e os dois se olham. Alain Resnais! Maravilhoso. Como gosto de emendar uma coisa na outra, adorei quando em Godard – Les Années Cahiers Jean-Luc confessa que invejou, mas foi uma boa inveja, Resnais, por Hiroishima, Meu Amor. Perdi o bonde do Festival da Francofonia, por conta de minhas viagens recentes., Não sei se está rolando, se já rolou ou vai rolar, mas me lembro de ter visto, em passant, que o evento iria mostrar o clássico de Resnais. Hiroshima! Tu n’as rien vu à Hiroshima… A trilha de Giovanni Fusco e Georges Delerue, a virilidade de Eiji Okada e me falta o adjetivo para definir/qualificar Emmanuelle Riva. O acompanhamento musical na cena em que ela corre, de bicicleta, ao encontro do amante alemão. On faisait l’amour partout. Que aqueles que não viveram em Nevers ousem falar do amor! Hiroshima é e será sempre um dos filmes da minha vida.

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