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Minhas viagens no tempo e o vento, da conquista da Paulista à Legalidade

Luiz Carlos Merten

31 de agosto de 2019 | 10h15

Havia decidido que este ano não faria festa para comemorar meu aniversário. Queria viajar, mas estava indeciso. Rio, Recife, Santiago, Buenos Aires? E aí ocorreu – Paula Ferraz me chamou para um debate promovido pela Abraccine, à qual não pertenço, mas que aceitou reunir-nos, Inácio Araújo e eu, para discutir Profissão Repórter, o filme cultuado de Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson. E será no dia 12, dia do meu aniversário, à noite. Está decidido. Vou comemorar 74 anos de frente para o público, assistindo a uma obra emblemática de um diretor a quem admiro muito, mas ainda não desisti de viajar no dia 13, passar alguns dias fora, comigo mesmo. Aproveito para acrescentar que, mais uma vez, estou indicado para o prêmio Comunique-se. Não vou ser cafona, pedindo que votem em mim, mas minha filha tem feito campanha nas redes sociais. Um monte de gente tem soprado no meu ouvido, dizendo que já votou em mim. Obrigado. Tive ontem outro dia corrido, mas quando não é assim? A matéria surgiu de última hora e tive de fazer umas quantas entrevistas para redigir o texto que estará na capa do Caderno 2 de amanhã. Será um domingo atípico na Av. Paulista, que será ocupada pela produção de Conquest, para a filmagem de uma cena grande da série produzida por Keanu Reeves. A 02 faz a produção local e eu conversei com Andrea Barata Ribeiro, com a produtora executiva Gabriela Rosès Bentancur e com o diretor Carl Erik Rinsch. Nem a fórceps consegui extrair muitas informações, exceto que se trata de uma ficção científica, num futuro distópico e que Carl decidiu-se por São Paulo, porque sua trama aborda a situação dos imigrantes e refugiados, portanto tem tudo a ver como essa cidade acolhe latinos, africanos, asiáticos. Andrea chamou-o de detalhista, Gabriela, de visionário e, claro, repassamos suas influências de Stanley Kubrick, Ridley Scott, Andrei Tarkovski (Solaris) e Neill Blomkamp, cujo Distrito 9 é uma de suas obras de referência. É impressionante, porque achava que teria uma sexta-feira relativamente tranquila, redigindo matérias já apuradas, com entrevistas já feitas, e aí mudou tudo. E isso que ainda não contei o essencial. Pela manhã, fui ver no Shopping Cidade de São Paulo o longa de Zeca Brito, Legalidade, que estava em Gramado, mas perdi. A Legalidade foi o movimento de resistência que Leonel Brizola, então governador do Rio Grande, comandou a partir de Porto Alegre, para garantir a posse do vice João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Jango estava na China, numa missão comercial – em 1961! – e a cúpula do Exército quis evitar que aquele ‘comunista’ chegasse ao poder. Zeca armou um novelão, com direito a triângulo amoroso formado por Cléo (ex-Pires), como dublê de jornalista e agente da CIA, e dois irmãos peleadores, interpretados por Fernando Alves Pinto e José Henrique Ligabue. Leonardo Machado, em seu último papel, faz um Brizola apaixonado, a quem a mulher, Neusa, reprocha a ambição. Havia ouvido horrores de Legalidade, mas confesso que gostei de ver o filme e até me emocionei. Zeca Brito defendeu-se em Gramado por sua opção narrativa, dizendo que o Brasil é uma telenovela – assim como a Argentina é um tango (olhem o calote da dívida que Macri está deixando de herança para o próximo governo). Zeca poderia ter evocado a tradição literária gaúcha. Erico e O Tempo e o Vento, a grande e a pequena história, a realidade e a ficção, os relatos caudalosos, de famílias. Meninos e meninas, eu vi. Estava lá. Em 1961, estudava no Júlio de Castilhos, que ficava a poucas quadras da Praça da Matriz e do Palácio Piratini. Zeca Brito – a cacofonia é terrível, Zé Cabrito – usa muitas imagens da época e eu imagino que talvez fosse possível procurar e, quem sabe?, encontrar o garoto Luiz Carlos no meio daquelas multidões. Meu irmão servia o Exército, para desespero de minha mãe, que temia pelos confrontos, perigo que só foi afastado quando o então comandante do 3.º Exército aderiu à causa legalista. Para as novas gerações de críticos e espectadores, Legalidade talvez seja um óvni – pelo tema, a forma -, mas na verdade o movimento teve e continua tendo desdobramentos nesse Brasil. Foi um filme que ficou comigo.

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