As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Minhas viagens interiores

Luiz Carlos Merten

18 de junho de 2016 | 09h29

Já contei que fui ver, no outro dia, La Vanité, que meu amigo Roger Lerina, de Zero Hora, de ‘Porto’, considerou o melhor filme do Festival Varilux. Achei interessante, mas gostei bem mais – sorry, Roger – de Chocolate, de Roschdy Zem, e mais ainda de Os Cowboys. Havia visto, no link, ‘parte’ do filme de Thomas Bidegain para entrevistar o jovem Finnegan Oldfield, que veio para o festival, mas é, de certa forma, um filme de paisagem e fui conferir (inteiro) na tela grande. Fiquei muito tocado pela história do garoto que acompanha o pai e depois segue sozinho atrás da irmã, que resolveu fugir com o namorado para o mundo árabe. Os Cowboys tem identidade própria, personalidade, mas no limite me levou numa viagem através de outros filmes. O tema da busca remete a Rastros de Ódio, de John Ford, em que Martin Pawley/Jeffrey Hunter junta-se a Ethan Edwards/John Wayne para caçar a garota (Natalie Wood) que foi sequestrada pelos índios. Pelo título, me lembrou o western de Mark Rydell, de 1972, em que John Wayne conduz um grupo de garotos no transporte de gado e, quando ele morre, seus ‘meninos’, a quem ele tratou com dureza e que viraram homens, o enterram na planície, seguindo adiante. Mais tarde, quando voltam, a relva tomou conta de tudo e os noivos caubois não conseguem mais encontrar a sepultura. Nunca vi epitáfio mais belo no cinema. Mas o filme também me lembrou o desfecho de Clamor do Sexo, de Elia Kazan, outro dos filmes da minha vida. Natalie Wood e Warren Beatty, que se amaram tanto, reencontram-se. Cada um seguiu sua vida e nada mais trará de volta o esplendor do sol na relva, Splendor in the Grass – o título original -, do poema de Woodsworth, que Kazan e seu roteirista, o dramaturgo William Inge, usam como epígrafe. Cada vez mais, e por mais que goste de escrever e compartilhar minhas sensações, o cinema que me interessa é esse que alimenta minhas viagens interiores. Também fiquei muito tocado por Como Eu Era Antes de Você, que uma nova diretora, Thea Sharrock, vinda do teatro, adaptou do best seller de uma tal Jojo Moyes, que eu não sabia que existiam, no plural, nem ela nem o livro. Fiquei tão impactado que fui pesquisar e descobri que a ‘crítica’ viu no filme uma diluição de Mar Adentro, de Alejandro Amenábar, com Javier Bardem, e Intocáceis, de Eric Toledano e Olivier Nakache, com François Cluzet e Omar Sy. No meu modo de ver, os dois outros filmes é que são diluições antecipadas de Como Eu Era. Sinto pelo spoiler, mas a cuidadora do filme de Thea não demove o garoto milionário do seu desejo de cometer eutanásia – e essa nem é a questão de Intocáveis, onde o cara usa, o tempo todo, a fortuna para promover seu bem-estar, jamais pensando em se matar -, da mesma forma que o Amenábar tem aquela cena detestável em que a câmera sai voando pela janela para mostrar a liberdade de movimentos que Bardem, perdeu. Em Como Eu Era, a mesma cena é uma conversa de Sam Claffin, quando ele conta a Emily Clarke qual foi o dia mais feliz de sua vida, ele sentado num café em Paris, vendo passarem, as moças bonitas e sabendo que elas correspondiam, a seu olhar de bonitão sentado na calçada. Palavras, não imagens. Mais tarde, na clínica, Sam, que se chama Will, pede a ‘Clark’ (Emily) que abra a porta que supostamente dá para uma paisagem. O que ela vê a deixa estupefata, mas a diretora não mostra. O que ela mostra é sempre o olhar de Will sobre Clark, e isso é maravilhoso. O cinema, melodia do olhar, segundo Nick Ray.

Tendências: