As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Minhas viagens

Luiz Carlos Merten

19 de julho de 2014 | 10h55

Fui ao Rio para participar do evento Transformers 4. Bem que tentei postar, dando conta de minhas experiências, mas além de montes de matérias para as edições de quinta e sexta-feiras, revi o filme, na quarta à noite, e boa parte da quinta foi tomada pelas entrevistas, que atrasaram. Gosto da adrenalina, mas às vezes…. Haja coração. As entrevistas terminaram quase 5 da tarde e eu tinha as matérias do Caderno 2 do dia, fechando às 7. Como não ia dar tempo de chegar à sucursal – estava em Copacabana, a sucursal é no Centro, na Av. Rio Branco -, corri ao hotel e comecei a redigir no computador do lobby. Já havia digitado uns 2 mil caracteres, sem salvar, claro, quando sumiu tudo. A máquina desligou-se sozinha. Devia ser algum decepticon, conspirando contra mim. Corri para uma lan house próxima e digitei no limite do desespero – nem digo redigi. E além do Trasnsformers, tinha o Giuseppe Tornatore, A Melhor Oferta. É bom, porque em princípio parecem tão diferentes. Um filme de moleque, com uma parafernália de efeitos, muitas batalhas, muitos ambientes, muita natureza. E outro mais intimista, fechado em dois ou três ambientes e voltado ao estudo de personagens reduzidos. Por falar em molecagem, o ‘meu’ Tornatore é o de Malena, com Monica Bellucci, que tem aquele plano maravilhoso – vendo Malena passar, o garoto tem sua primeira ereção e Tornatore filma, em detalhe, o volume que cresce nas calças curtas. É um dos planos mais belos que já vi, embora, ao confessá-lo, talvez me arrisque a ser chamado de tarado, pedófilo. Deus me livre, não é nada disso. É Proust. O tempo perdido e reencontrado. Beleza pura. Deleite estrético. E, no final, quando Malena volta de braço dado com o marido que perdeu o braço na guerra – uma senhora merecedora de respeito -, aquilo enche a minha alma e eu choro, sempre chorei, em cada uma das 300 vezes que já vi o filme no cinema e na TV paga. Enfim, volto a Transformers 4. Respeito muito Michael Bay e assim, como meus colegas críticos acham que quem curte os filmes deles é e será sempre ‘infantilizado’, acho que também deveriam ter suas cabeças examinadas, se acham que fazer aquilo é fácil. No limite, é nonsense. Robôs alienígenas que viram carros, máquinas do bem contra máquinas do mal etc. Mas máquinas não representam! Às vezes, nem atores representam (a lista de canastrões de todos os sexos é infindável). Como se filma isso, como se constroem as cenas no imaginário do público? Na visita anterior de Bay ao Brasil, conversei com ele sobre Stanley Kubrick, 2001 e Hal-9000. Desta vez, fiz a pergunta durante a coletiva e ele me falou dos 4 mil artistas e técnicos que trabalharam na produção e de como muita, dessa gente toda, trabalhou só para dar expressão ao Transformers. Você não tem ideia, You have no idea – é uma frase muito repetida no filme – como é difícil criar os olhos de Optimus Prime e dos demais Transformers, ele disse. Dar mobilidade àquelas fasces de aço. Quê? Aquelas luzinhas vermelhas, ou azuis? No idea, nem quero saber, só quero desfrutar. Fui procurar ontem não sei que informação – sei, sim, Nicola Peltz respondeu a uma pergunta que ela era a número 1 do mundo e eu não entendi do quê. Procurei e encontrei que a revista Glam.mag, imagino que seja uma revista, mesmo virtual, a elegeu a mais sexy do mundo na nova edição que saiu esta semana -, mas encontrei também uma crítica de um garoto mineiro – imagino que seja garoto -, que não apenas cagava regras sobre o roteiro e a realização do filme (ruins, segundo ele) como desautorizava o Code Yeager de Mark Wahlberg como pai, dizendo como um pai de verdade deveria se comportar com a filha. As pessoas criticam o que para elas é a confusão do filme, mas não dão conta da confusão em suas cabeças. Goste-se ou não, existe, no cinema como na TYV e no teatro, uma coisa chamada dramaturgia. Se eu for cobrar dos autores metade do que já sei das pessoas e do mundo, quantos filmes vou invalidar? E o cinema tem uma característica particular – muitos grandes filmes carecem de psicologia e criam personagens que se expressam só pela ação. Só insisto numa coisa – algo têm esses Transformers. Não é à toa que o sucesso planetário de A Era da Extinção já ultrapassou meio bilhão de dolares, basicamente em apenas dois grandes mercados – EUA e China. No Brasil, só nas pré-estreias, 1,6 milhão de espectadores já haviam visto o filme antes de quinta. Só débeis mentais? Eu, quase septuagenário, senti-me homenageado nas deslumbrantes cenas em Monument Valley – que Michael Bay me confirmou. Sim, John Ford é um dos grandes, um dos maiores. Já sabia. E a euforia do transformer, saltando  daquelas escarpas aos gritos – ‘He’s back, Optimus is back!’ -, ativou lembranças que me emocionaram muito. Pode ser que contribua para isso o fato de ter sido leitor voraz da Coleção Terramarear quando garoto. Eu fui, mas entre um Tarzan e um Capitão Blood sempre (re)lia o meu Machado, que não era uma obrigação escolar, mas um prazer.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: