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Minha viagem

Luiz Carlos Merten

23 de janeiro de 2013 | 10h54

TIRADENTES – Não sei de vocês, mas vivo me perguntando o que é o cinema. Qu’est-ce que le cinéma?, André Bazin. Tinha muitas certezas, todas as certezas do mundo, aos 18 anos. Substituí-as por dúvidas. Cada filme virou para mim uma redescoberta, uma reinvenção, como se estivesse começando de novo (aos 67!). Vi ontem um filme na Mostra Aurora que me deixou chapado. ‘Matéria de Composição’, de Pedro Aspahan. Um filme mineiro sobre o processo de criação de três compositores de música erudita e experimental. O diretor filma uma casa em demolição. Sobre essas imagens, os três propõem diferentes trilhas. A demolição vira um conceito – desconstrução, invenção, recriação. Os caras são homens de cultura, possuem teoria. Numa cena, um deles fala do som e sua duração única. O discurso poderia ser o de Carlos Adriano, que transformou onze fotogramas que restam da primeira filmagem feita no Brasil num média-metragem maravilhoso, ‘Remanescências’. Basta substituir ‘som’ por ‘fotograma’ e os discursos são muitos parecidos, senão os mesmos. Adoro westerns, thrillers, o cinema do movimento, mas me amarro numa câmara parada. Entendo perfeitamente o ideal de Robert Bresson – a câmera parada, contra uma parede branca e o ator, não profissional, que recita seu texto monocordicamente. Para mim, não tem de ser uma nem outra. Estilo e conceito não podem ser grilhões. Diferentes histórias exigem diferentes formas e tratamentos. Pedro Aspahan filma um de seus compositores pelo que parece uma eternidade. Ele olha para a frente, mas meio enviesado, fora de quadro. Olha uma partitura, que não vemos. E depois de dois, três minutos, começa a mover lentamente os dedos, a criar. Um dos mais belos, o mais belo plano recente do cinema brasileiro – da cobertura destruída, pendem ferros com blocos de concreto na ponta. Eles oscilam. num movimento pendular. Sobre a imagem, superpõem-se sons. Aquilo é nada, mas quem disse que nada não é tudo? Acho que Lina Chamie vai amar, ela que criou em ‘Tônica Dominante’ aquele plano deslumbrante – Fernando Alves Pinto desce a a Xavier Toledo deserta, rumo ao Teatro Municipal, com música de fundo. São momentos de epifania, de euforia interior. A Mostra Aurora celebra o novo, aponta o futuro. Mas A Mostra de Tiradentes não tem fronteiras e, hoje à tarde, resgata um clássico pouco conhecido do cinema brasileiro – ‘Proezas de Satanás na Terra de Leva e Traz’. Paulo Gil Soares deve sua fama ao documentário curto ‘Memória do Cangaço’, que integra a antologia ‘Brasil Verdade’, na qual meu preferido é ‘Viramundo’, de Geraldo Sarno. No meu imaginário, ‘Proezas’ é muito mais forte que ‘Memória’. Existem filmes que não fazem parte da história oficial do cinema brasileiro, dos quais pouca gente se lembra ou dos quais raramente se ouve falar. Mas esses filmes meio à margem – não marginais, como os de Elyseu Visconti, autor que vale descobrir e que ganha retrospectiva em São Paulo (mas tinha de ser agora, durante Tiradentes?) – elaboram uma história particular do cinema no País, que não teria sido o mesmo nos anos 1960 e 70 sem meus cults. ‘Selva Trágica’, de Roberto Farias, ‘Proezas’, de Paulo Gil, ‘Pecado na Sacristia’, de Miguel Borges, ‘Possuída por Mil Demônios’, de Carlos Frederico – ah, Izabella – e ‘Marília e Marina’, de Luiz Fernando Goulart. Um dia ainda vou imitar Martin Scorsese e escrever a minha viagem pessoal pelo cinema brasileiro.

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