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Minha viagem pelo cinema sonhado de Giorgetti

Luiz Carlos Merten

21 de janeiro de 2019 | 23h27

Acabo de ver o primeiro dos quatro episódios da minissérie O Cinema Sonhado, de Ugo Giorgetti, uma produção do Sesc TV e já vou anunciando que, na sexta, 25, dia do aniversário de São Paulo, o programa completo será apresentado, às 5 da tarde, pelo CineSesc, e gratuitamente. A sessão de hoje já foi no CineSesc. Não percam. Giorgetti faz a sua viagem pessoal pelo cinema paulista (paulistano?), no período entre 1963 e 90, quando ele próprio fez sua formação, mais prática que acadêmica. Cinema e publicidade. Embora os jovens diretores da época sonhassem com o primeiro, nos anos 1960, a Censura e as dificuldades de produção os encaminhavam para a publicidade. O próprio Giorgetti fez esse percurso, mas não existe diretor menos ‘publicitário’ que ele. Giorgetti entrevista diretores e técnicos, mas por uma questão de direitos ou o quê, acho que é o quê, não mostra uma imagem desse cinema sonhado. Fiz eu a minha viagem. Nesse período vivia em Porto Alegre e não tinha muito claras essas divisões. Tudo era cinema brasileiro, que, para a gente, vinha predominantemente de ‘fora’. Os filmes baianos e cariocas diferiam dos paulistas, e esses se dividiam entre as comédias caipiras de Mazzaropi e os experimentos mais estéticos de Walter Hugo Khouri e Luiz Sérgio Person. Eram os cineastas da grande cidade, e Khouri, o ‘sueco’, por amar Ingmar Bergman, era chamado de alienado. Khouri, por sinal, é vagamente lembrado nesse primeiro episódio. Fosse eu o viajante e com certeza lhe atribuiria maior importância, ou tempo. Mas gostei de ver esse cinema sonhado – perdido? Reencontrado? Jeremias Moreira faz uma reflexão importante, sobre como a obra dele, no período de três anos – entre 1976 e 78 -, espelha a decadência dos cinemas de rua em São Paulo. Menino da Porteira foi um megassucesso, Mágoa de Boiadeiro, um pouco menos, mas ainda foi bem e quando surgiu O Fuscão Preto as salas de rua foram substituídas pelos shoppings e esse tipo de cinema popular perdeu espaço. Tenho pensado em Khouri, que conheci no set de filmagem de Filhas do Fogo, no Rio Grande, e que virou um querido amigo, quando me mudei para São Paulo. Visitava-o no apartamento da Martins Fontes e sempre fui bem acolhido pelo casal, Walter e a mulher, a Nadir. E, se penso nele, penso no que escreveu certa vez Jefferson Barros, grande crítico gaúcho. O que seria de Michelangelo Antonioni sem a Itália, de Alain Resnais sem a França? Seriam Walter Hugo Khouri fazendo cinema no Brasil. Não vou elucidar a frase. Cada um pense o que quiser, mas acho que Jefferson, há 50 anos – 50! – entendeu tudo sobre a tragédia de um cinema brasileiro solitário e autoral. Khouri era grande, mas era marginalizado por suas pesquisas estéticas, que eram consideradas de segunda mão. Não eram. Marginalizado/marginal. Nosso complexo de furreca não permitia que se olhasse para os problemas no topo da pirâmide social. Estávamos presos ao pé descalço. Quem tinha sapato não ia sobrar.