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Minha ‘Semana’ começou com odisseia nos ares

Luiz Carlos Merten

21 de novembro de 2015 | 11h31

RIO – Cá estou, desde ontem. Vim para ver alguma coisa da Semana dos Realizadores. Queria ficar até terça, mas fui atropelado pela vinda de Quentin Tarantino ao Brasil. Segunda-feira tem a sessão de Os Oito Odiosos, ele dá coletiva seguida de individual e eu terei de estar em São Paulo. Outro problema, maior até, é que os voos estão lotados por causa do feriadão. Minha vinda ontem foi traumática. O voo deveria ter saído de Congonhas às 9h30, mas já saiu quase 11. Chegamos ao Rio e o avião ficou orbitando, porque havia sequência muito grande de pousos e decolagens. Houve problemas numa pista do Galeão e os voos foram deslocados. Orbitamos, e nada. O voo voltou para Congonhas, que não nos aceitou. Fomos a Campinas, para reabastecer. Chegamos quase 4 da tarde no Rio. Se era para demorar seis horas teria sido melhor vir de ônibus, que era mais barato. E ainda tenho de resolver a volta. Cheguei ontem, almocei, fui à sucursal e só consegui ver a sessão de curtas das 21h30. Admiro muito o trabalho de Lis Kogan na Semana. Como na Mostra Aurora de Tiradentes, gosto dessa ideia de, num mundo de imagens, fazer um, evento para celebrar a resistência. Liz diz uma coisas muito interessante no texto de abertura do catálogo. SE hoje o ideal de revolução ()e, com ele, o da arte revolucionária) parece em inevitável desgaste diante de um sistema que trabalha constantemente para abafar as dissidências, é inegável que, ainda assim, os dissidentes dissidem, os subversivos subvertem e os resistentes resistem à normatização da sociedade contemporânea. A Semana quer ser – é – esse espaço de resistência. É incrível que tenha precisado vir ao Rio para ver, ontem, Aluguel: O Filme, cujo diretor, Péricles Lincoln, não estava presente porque acompanha a luta dos estudantes que ocupam escolas em São Paulo resistindo ao projeto (des)educacional do governador Alckmin. Péricles é do Capão Redondo e montou Mataram Meu Irmão, de Cristiano Burlan, na fase inicial do Cristiano, pré-Bernardet, que me parece a mais interessante. Fiquei muito desconcertado com São Paulo com Daniel, de Deborah Viegas e Nicolas Thomé Zetune. Um garoto com uma deficiência física faz sexo com um homem que encontrou no hotel em que está com a mãe. E grava o ato no celular. Aquilo começou a produzir um mal-estar muito grande, o celular, mais que sexo em si, e aí vem o perverso twist final, de uma forma sem culpa, quase inocente, um horror. Incomodou-me mais ainda a enigmática imagem da mulher que chora, que os diretores disseram que era a única coisa que os unia de verdade no projeto, que começou com um, o outro entrou e, das discussões dos dois, nasceu essa mãe chorona. E veio o melhor de todos, História de Uma Pena, de Leonardo Mouramateus. Comprei uma Cahiers na banca, em São Paulo, e havia esse texto sobre as novas faces, ou vozes, do cinema brasileiro, que não li, mas a foto era de um filme de Mouramateus, não sei se esse, porque guardei o nome do diretor, não o da obra. Fiquei muito impressionado, com o filme e o diretor. Leonardo é garoto (24 anos) e sua mãe veio de Fortaleza para a sessão. O filme é sobre jovens numa escola, mas, antes disso, sobre jovens que fazem sexo na natureza e também que trocam ideias fumando baseado, e sobre um professor que tenta estabelecer formas de comunicação com a ‘turma’. O professor é Caetano Gotardo, e o ‘Lero’ contou como trabalha com os atores, entre eles Jesuíta Barbosa, e como utiliza a música para criar ritmos. Um cinema de corpos, pulsões, diálogos. De um jovem diretor muito articulado. No conjunto, e talvez tenha sido isso que chamou a atenção de Cahiers para Leonardo Mouramateus, o cinema dele tem uma pegada à Hong Sang-soo, naquele sentido de que o coreano é herdeiro de Eric Rohmer, portanto, da nouvelle vague. Estava chovendo muito. A chuva deu uma trégua. Não parou, mas está fraca. É hora de sair. Vamos ver o que a Semana me reserva hoje.