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Minha ode tardia a Emmanuelle Riva

Luiz Carlos Merten

01 de fevereiro de 2017 | 15h21

Estou em choque. Ainda não consegui postar nada sobre Estrelas Além do Tempo nem Eu não Sou Seu Negro, embora sobre o primeiro já esteja escrevendo no Caderno 2 de hoje. Gostei bastante do primeiro e quanto ao segundo, do qual gostei mais ainda, somente fortaleceu minha crença na necessidade de filmes como o de Raoul Peck e o de Nate Parker (O Nascimento de Uma Nação), que tanta discussão provocou no ano passado. Mas ambos vão ter de esperar. Estou em choque – repito. Somente agora, no almoço, e graças a uma piada de mau gosto que não vou reproduzir, soube da morte de Emmanuelle Riva no fim de semana. Emmanuelle Riva! Embora tenha participado de filmes importantes e/ou polêmicos como Kapò, de Gillo Pontecorvo, Thérèse Desqueyroux, de Georges Franju, e o mais recente Amor, de Michael Haneke, Emmanuelle será sempre, no meu imaginário, elle, la femme, no clássico de Alain Resnais (e Marguerite Duras), Hiroshima, Meu Amor, que é um dos filmes da minha vida (com Rocco e Seus Irmãos, Rastros de Ódio, A Primeira Vitória, O Intrépido General Custer, M – O Vampiro de Dusseldorf e Selva Trágica, os sete que, nesse momento, eu levaria para a ilha deserta). Tu n’as rien vu à Hiroshima. A voz pausada, máscula de Eiji Okada. E a repetição nervosa de Emmanuelle – Je tout vu. Tout… Ainsi l’hôpital je l’ai vu. J’en suis süre. L’hôpital existe. Comment aurais-je pu éviter de le voir à Hiroshima? Não tinha idade para ver o filme quando estreou no Brasil, mas o conheci, ainda nos anos 1960, quando ainda era muito jovem e já me interessava por cinema. Hiroshima, Meu Amor causou-me funda impressão. A explosão naquele bar, sob o efeito da bebida – Ah que j’ai été jeune un jour… Em Cannes tive o privilégio de conhecer Emmanuelle Riva e me curvar perante ela. Foi quando passou a versão restaurada de Hiroshima em Cannes Classics, em 2013. Okada e Duras já se haviam ido, Resnais estava tão debilitado que não pôde participar da sessão (e também ele se iria em março do ano seguinte). Sobrava o mistério de Emmanuelle. Frágil, delicada, mas quando ela falou para nos apresentar o filme, saudada por Thierry Frémaux, a voz, como uma madeleine, antecipou as imagens que logo em seguida iriam bater na tela. Emmanuelle Riva e seu japonês – Qui es-tu? Tu me tues, tu me fait du bien… Emannuelle e seu alemão – On faisait l’amor partout… Não sei se faz diferença ter sido jovem nos anos 1960, quando o mundo estava mudando e tudo parecia possível. O texto, o recitativo de Duras e a montagem de Resnais. A fotografia, a trilha. E Eiji Okada e Emmanuelle Riva. Ela se foi aos 89 anos, no dia 27, a menos de um mês de completar 90 (em 24 de fevereiro). Será eterna enquanto existir Hiroshima Mon Amour.

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