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Minha ode para um palhaço triste

Luiz Carlos Merten

26 Março 2015 | 16h53

É irônico – na falta de um adjetivo melhor –, que na mesma semana em que morreu o ator brasileiro que talvez melhor representasse o ‘galã’, Cláudio Marzo, tenha morrido também Jorge Loredo, o antigalã. Foi hoje de manhã, num hospital na Zona Sul do Rio. Jorge Loredo tinha 89 anos. Com seu cabelo engomado, o bigodinho cafajeste, ele criou um personagem imorredouro, Zé Bonitinho. Definindo-se como ‘o perigote das mulheres’, Zé era de uma breguice comovente, mas se julgava irresistível. Seu jeito de ajeitar o cabelo, com aquele pente enorme, os óculos, também imensos, tudo realçava a cafonice.
O curioso é que o humor surgiu meio por acaso em sua vida. Era advogado, especializado em Direito Previdenciário. Jovem, teve tuberculose. No sanatório, para se animar, entrou para um grupo de teatro. Não conseguia ser ‘dramático’, mas fazia todo mundo rir. Embora a TV tenha sido sua mídia, Loredo fez cinema, e com grandes diretores. O comediante popular marcou sua presença em filmes de autor. Fez com Rogério Sganzerla Sem Essa Aranha e Abismu/O Abismo, com Arnaldo Jabor, Tudo Bem e A Suprema Felicidade, com Laís Bodanzky, Chega de Saudade, e com Selton Mello, O Palhaço.
Em Sem Essa, Aranha, faz um viciado em jogo que se divide entre três mulheres. Sganzerla dizia que seu filme era uma comédia sobre a fome e um ensaio de humor negro sobre a miséria agônica do subdesenvolvimento mental. Loredo representava a burguesia nacional, tão patética que chegava a ser chapliniana. O patetismo era intrínseco à sua persona. Está nos tristes bailes da vida de Chega de Saudade e no picadeiro pobre de O Palhaço. Todo mundo vai lembrar que Loredo fazia a alegria do público. Pode ser, mas como muitos – a maioria dos – palhaços, era triste.