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Minha ode a Torre-Nilsson

Luiz Carlos Merten

06 de junho de 2015 | 10h02

Havia me esquecido co0mpletamente da retrospectiva de Leopoldo Torre-Nilsson no CCBB. Torre-Nilsson! Conta a lenda que Alfredo Alcón, logo após o enterro do diretor no Cementerio Britânico de Buenos Aires, em 9 de setembro de 1978, pediu um minuto de silêncio pelo cinema argentino, que também teria morrido. Em 1963, quando La Terraza estreou nos EUA (ou foi 1964?), a revista Time colocou Torre-Nilsson como um dos onze maiores cineastas do mundo, com Luis Buñuel, Alain Resnais, François Truffaut, Tony Richardson, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Andrzej Wajda, Satyajit Ray, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini. Torre-Nilsson já era um (grande) nome no cinema internacional, mas certamente não era uma unanimidade, e muito menos na Argentina. Como Walter Hugo Khouri, que os críticos diziam que fazia um cinema de classe – e era chamado de ‘Sueco’ no Brasil, por sua fase Ingmar Bergman -, Torre-Nilsson também era considerado um corpo estranho no cinema do país. Filho de diretor – Leopoldo Torres Rios -, ele se inscrevia na tradição de uma literatura argentina (Borges e Bioy Casares) fantástica e até metafísica, numa época em que o discurso, via peronismo, era o social. Torre-Nilsson podia estar examinando a decadência da classe dominante, era antiburguês, anti-oligárquico e antirreliogioso, mas era um formalista cerebral e isso o afastava do realismo à flor da pele de Hugo Del Carril e Fernando Birri e do projeto estético/político da nouvelle vague representada por Fernando Solanas e Octavio Getino. Aos olhos do mundo, ele podia encarnar o cinema da Argentina – e fazia seus filmes numa empresa que tinha essa ambição, a Argentina Sono Films -, mas não creio que, internamente, e salvo exceções, satisfizesse as expectativas da crítica e dos cinéfilos militantes. Lembro-me que P.F. Gastal, à frente do Clube de Cinema de Porto Alegre, supria a ausência de Torre-Nilsson do circuito comercial, fazendo exibições esporádicas de seus filmes, acredito que por meio das cinematecas uruguaia e argentina. Embora não fosse sócio do CC tive acesso a algumas dessas sessões e vi La Casa del Angel, adaptado do livro de Beatriz Guido, Fin de Fiesta e El Guapo del 900, que foi seu filme de que mais gostei, na época – e que hoje, retrospectivamente, continuo achando o melhor. É uma mistura de estudo psicológico e crítica social, realizada com brilho e animada pelo mítico Alcón, numa interpretação carismática como Ecuménico López. O primeiro e penso até que o único filme de Torre-Nilsson lançado nos cinemas de Porto Alegre foi Pele de Verão/Piel de Verano. Numa praia invernal e deserta, a bela Graciela Borges, que seria, anos mais tarde, a matriarca de O Pântano, de Lucrecia Martel, é contratada para acompanhar e minorar o sofrimento do terminal Alcón. Ela faz o que é preciso, ele se apaixona, mas descobre a armação. A miséria dos sentimentos – Graciela só descobre tardiamente que amou aquele homem. Em 1961, era jovem e mais romântico. Apesar do artificialismo gélido, a beleza dos protagonistas me tocou e guardo até hoje cenas inteiras, diálogos inteiros do filme. A explicação para o título me atingiu como um raio. Devo ter visto algum Bergman, Luz de Inverno, talvez, que refletia a mesma amargura, o mesmo frio desespero. O cinema argentino precisou se desvencilhar do fantasma de Torre-Nilsson e de seus grandes filmes para renascer, e tomar a forma que faz dele, hoje, um dos preferidos do público, no Brasil, inclusive. Talvez Alfredo Alcón tivesse razão, afinal – foi o fim de um cinema argentino, não ‘do’. Torre-Nilsson ainda fez seus épicos históricos  – e ganhou o Festival Internacional do Rio, com Martin Fierro, baseado no poema fundador da identidade nacional, de José Hernández. Estávamos lá, em Buenos Aires, Doris e eu, quando estreou Los Siete Locos, que ele adaptou de Roberto Arlt. Torre-Nilsson, de alguma forma, conseguiu se impor. Formavam-se extensas filas na Calle Lavalle, que era, então, a dos cinemas. Ali, malgrado as ditaduras que se sucediam, vi muitos filmes que me eram negados no Brasil. É que, na Argentina e no Uruguai, a formação cultural deles forçava os milicos a serem mais tolerantes (enquanto torturavam e matavam nos subterrâneos do regime). Mas Torre-Nilsson, no fim da vida, foi aprofundando os temas e a análise da burguesia, a ponto de chegar a uma ruptura com Piedra Libre. Foi demais para o regime e até o grande Leopoldo, uma instituição nacional, foi censurado no que virou seu último filme, de 1976. Ele foi, nos erros e acertos, o farol de uma geração. Em torno dele gravitaram Manuel Antín e La Bemberg, Maria Luisa, grande dama que entrevistei em Veneza, num dos primeiros festivais internacionais a que fui. Penso em Torre-Nilsson e me vêm as imagens. As estátuas impúdicas e as jovens que se banhavam de camisola em La Casa del Angel, o comentário de Elida Gay Palmer no final do Guapo (‘Hay hombres que salen de la prisón por buena conducta. Este es el caso contrario. Entra por buena conducta’) e o monólogo de Graciela Borges (‘Nosostros somos la píel del verano’). A razão talvez me dissesse para desconfiar de Torre-Nilsson, mas eu o amei, amei seu cinema e ele foi um dos deflagradores da minha latinidad, que não é só agrária nem indígena, mas também cosmopolita. Montevideu e Buenos Aires eram, nos anos 1960 e 70, quando comecei a viajar, cidades de sonho. Não sei nem os filmes da retrospectiva de Torre-Nilsson que ainda estarão em cartaz no fim de semana – o último -, mas vou tentar recuperar alguma coisa, hoje e amanhã.