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Minha Mulher Maravilha

Luiz Carlos Merten

16 de dezembro de 2020 | 12h36

Confesso que, num primeriro momento, fiquei desconcertado com Mulher Maravilha 84. Havia entrevistado a diretora Patty Jenkins e Gasl Gadot no fim do ano passdado – há um ano! – quando vieram a São Paulo para a CCXP. Patty me havia falado do excesso assumido de seu filme, daí, inclusive, a década de 1980 e o ano emblemático de 84. MM84 é um filme de duplos. Todo mundo tem seus desejos ocultos, que uma pedra vem realizar. A cientista Barbara Minerva quer ser Diana e a própria Wonder Woman quer de volta seu amado Steve/Chris Pine. E há Maxwell Lord, que vira a própria pedra dos desejos e cava um inferno para si mesmo, e o mundo. No início, pensamos que Lord quer apenas ser um herói aos olhos do filho, mas ao ceder à tentação do poder ele vira uma aberração. Meu desconcerto, ou minha dificuldade inicial, foi juntar as duas partes. Gostei muito da transformação de Barbara em Chiotah, como reverso da MM, e da importância que os saltos altos têm nessa mudança. Não pude deixar de pensar em Catherine Deneuve e seu salto quebrado em Indochina, de Régis Wargnier. Mas tendo o primeiro Mulher Maravilha virado emblema do #MeToo e do empoderamento feminino – tem gente que detesta a palavra, ‘empoderamento’, talvez se sintam acuados -, não conseguia juntar muito bem a questão masculina da história. No filme anterior, Steve já era o herói, inclusive sacrificando-se por Diana e pelo mundo no final, o que faz de novo em MM84. Muita gente até achava que, no fundo, o tal feminismo de Patty/Diana encobria um machismo velado na celebração do que deveria ser o homem face a essa nova mulher. Gal foi Miss e foi soldada em Israel, então eu acho que Patty e ela buscam uma espécie de equilíbrio. Só um homem fraco, inseguro de si mesmo, teme o poder da nova mulher. A questão está em Lord, que tem de abrir mão do seu desejo de poder para assumir de vez a paternidade baseada no afeto. Creio que, na verdade, o xis da questão é esse. A MM do mal, Chitah, é derrotada, Lord humaniza-se pela paternidade e Diana, no fim, não está mais sozinha. Segundo o que diz Steve ao pilotar o avião, domina o ar e o vento com seu laço da verdade. Senhora dos raios, está pronta, quem sabe, para amar de novo. Não faria sentido, na eventualidade de um 3, Steve ficar sempre voltando. Não sei, sinceramente, se MM84 conseguirá repetir o 1 como fenômeno planetário. Creio que não, mas gostei de ver, gostei do colorido – em todos os sentidos -, só acho que o excesso consciente de temas e formas leve tempo para absorver/decantar. É muita informação, por exemplo, aquele muro que o rei árabe do petróleo faz construir? Ecos do celerado Mr.Trump?