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Minha jornada pelo cinema norte-americano

Luiz Carlos Merten

09 de março de 2016 | 15h32

Preparem-se que o post vai ser longo. Cheguei de viagem, das Europas, e me esperavam os novos lançamentos da Versátil. Caixas sobre o cinema da nova Hollywood, com filmes de Monte Hellman (Corrida sem Fim), Milos Forman (Procura Insaciável), Peter Bogdanovich (Essa Pequena É Uma Parada), William Friedkin (O Comboio do Medo), Robert Altman (Voar É com os Pássaros) e o meu favorito, entre todos esses filmes, não os diretores, Joe Flynn (o potente A Outra Face da Violência) – se bem que me pergunto se a caixa é mesmo representativa da nova Hollywood, e tendo a achar que não. Mas A Outra Face é muito legal. William Devane volta do Vietnã, onde viveu aprisionado por oito anos. Um bando invade sua casa, mata sua mulher e o filho e ainda destroça a mão de Devane, que pede ajuda ao amigo Tommy Lee Jones e partem ambos para a guerra. Sempre gostei muito desse filme e de Programado para Matar, o primeiro Rambo, de Ted Kotcheff, mais do que dos filmes sérios sobre o tema – Vietnã -, que me pareciam exagerar na autocomiseração, como O Franco Atirador, de Michael Cimino, multipremiado pela Academia com cinco Oscars. Tem também um pacote sobre Simone de Beauvoir e o feminismo, outro sobre John Cassavetes e a nova Hollywood e, finalmente, A Arte de Arthur Penn. Comemorou-se ontem o Dia da Mulher, e aproveitei para fazer um texto na versão online do Estado, discutindo o legado da companheira de Jean-Paul Sarte, focada por meio de três documentários (duas entrevistas filmadas). Gosto muito de Cassavetes, o ator de Robert Aldrich (Os Doze Condenados) e Roman Polanski (O Bebê de Rosemary), mas tenho minhas dúvidas quanto ao diretor, que construiu sua obra ‘autoral’ longe de Hollywood, em filmes parcialmente improvisados ou que ele criava como psicodramas, sempre com os mesmos atores e a mesma atriz – sua mulher, Gena Rowlands. Sei que tem gente que ama Cassavetes, mas não é o meu caso. Sua ‘intensidade’ me cansa e não tenho muita empatia pelos personagens. Comparativamente, gosto muito mais de Arthur Penn, de quem a caixa traz filmes como o western Um de Nós Morrerá e os dramas Mickey One, Deixem-nos Viver (Alice’s Restaurante) e Amigos para sempre. Era garoto quando vi The Left Handed Gun, lançado no Brasil como Um de Nós Morrerá, embora a tradução literal seja ‘O Canhoto’. Em francês, ficou sendo Le Gaucheur. Conta a história de Billy the Kid, interpretado por Paul Newman, com base na teleplay de Gore Vidal, apresentada originalmente no Philco Playhouse, uma espécie de teatro na TV, em que se exercitaram, nos anos 1950, Penn e também John Frankenheimer e Sidney Lumet, antes de migrarem todos para Hollywood. Todo Penn já está aqui – o foco psicanalítico, a relação do pênis com a pistola, a “América’ primitiva que só resolve seus conflitos pela violência, a transformação do jovem violento em mito etc. Bonnie & Clyde/Uma Rajada de Balas somente ampliou isso, anos mais tarde. Quase toda controvérsia cercando Penn deve-se ao fato de que Mickey One, lançado na Espanha (e na América espanhola) como ‘Acossado’, foi talvez o único filme que ele escolheu fazer, e foi seu maior fracasso de público e crítica. Nos demais, ele foi sempre diretor contratado, o que nunca o impediu, claro, de pessoalizar os projetos, mas Mickey One irrompeu na tela como a versão norte-americana de um filme da nouvelle vague. Seria o Atirem sobre o Pianista de Penn, sobre um músico perseguido por gângsteres. Lembro-me da bela fotografia em preto e branco e da trilha de jazz, incluindo um solo de Stan Getz para se ‘ouvir’ de olhos fechados (sendo transportado para o nirvana). Deixem-nos Viver é sobre o sonho hippie, com base na música de Arlo Guthrie, filho de Woody, e o que sempre me impressionou foi o fato de que o filme termina com a mesma combinação de travelling avante e aceleração da lente zoom que Claude Chabrol usou, na mesma época, no desfecho de A Mulher Infiel. Dois grandes diretores valerem-se do mesmo recurso, na mesma época e sem que um soubesse o que o outro estava fazendo, tudo isso sempre me pareceu muito raro. Em 2005, entrevistei Wim Wenders em Cannes, por Don’t Come Knocking, Estrela Solitária, com Sam Shepard e Jessica Lange, e observei que numa cena de estrada ele filmava do mesmo jeito que Chabrol e Penn, aproximando as montanhas de fundo com o duplo recurso ao travelling e à zoom. Lembro-me perfeitamente da resposta de Wenders – “Todos nós roubamos de (Alfred) Hitchcock, porque, se você lembrar bem, ele foi o primeiro a fazer isso”, e foi na cena do campanário em Vertigo/Um Corpo Que Cai, de 1958, ou seja, mais de uma década antes de La Femme Infidèle e Alice’s Restaurant, que são de 1969. Finalmente, Amigos para Sempre, Four Friends. Três amigos às voltas com a mesma mulher, numa narrativa que atravessa os turbulentos anos 1960. Numa cena, um deles é baleado e, na UTI, recebe a visita do pai, um imigrante iugoslavo. Diante do filho todo enfaixado, ele diz apenas ‘America’. Entendemos tudo – a amargura, o desencanto. M… de país violento. Sucesso de crítica mas fracasso de público, Four Friends/Quatro Amigos iniciou a degringolada de Arthur Penn em Hollywood, onde um diretor vale por seu último filme. Fracassou, bye-bye, não importa o que tenha feito antes. Penn morreu em setembro de 2010. Três anos antes,. em fevereiro de 2007, recebeu um Urso de Ouro especial, de carreira, em Berlim. Éramos poucos na sala em que ele deu uma coletiva, mas eu tive o privilégio de conversar com Penn e apertar sua mão. Foi um autor seminal. Seus grandes filmes – Um de Nós Morrerá, O Milagre de Annie Sullivan, Caçada Humana (mesmo remontado pelos produtores), Uma Rajada de Balas, Um Lance no Escuro – estão no meu panteão.