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(Minha) Jornada de Vida

Luiz Carlos Merten

21 de julho de 2019 | 10h28

Almocei ontem com Lúcia no peruano dos Jardins, o Riconcito da Al. Campinas. Embora ainda esteja no antibiótico – ainda! -, tomei um pisco sour. Mais de dois meses sem beber nada – fiquei não alegrinho, mas mole. Emendei com o Jornada da Vida, na Reserva Cultural, sessão das 15h10. Reencontrei uma amiga que não via há anos, Regina Vasques. Sala cheia, sentei-me espremido na fila C. Gostei do filme de Philippe Godeau e achei incrível a dupla formada por Omar Sy e pelo garoto Lionel Basse. O moleque é a alma do filme, Yao. Duas cenas me deixaram chapado. O carro com o astro francês Seydou Tall, que está no Senegal para lançar seu livro, atravessa Dacar. Seis da tarde, a hora da grande oração. O ímã chama os fieis que sacam seus tapetinhos e ali mesmo, no meio da rua, paralisam o trânsito. O carro fica travado e Seydou/Omar tem o primeiro choque na terra de seus ancestrais. Outro mundo, outra cultura. Como ‘estrangeiro’, francês, ele é um negro de alma branca – Yao compara-o ao chocolate, Prestígio. A outra cena – Yao fugiu de casa, numa aldeia distante quase 400 km para tentar encontrar Seydou em Dacar. Não avisou o pai. Quando regressa com o francês, o pai o esbofeteia e Godeau de novo concentra sua câmera no rosto de Omar. Aquela é a sua raiz, mas para ele é uma descoberta atrás da outra. Para o branco que ele se tornou, aquela bofetada talvez seja uma violência, e inominável. E Seydou, nesse particular momento de sua vida, está tendo problemas com a mulher e o filho, Nathan. Procurei entrevistas do diretor na internet e achei uma matéria do Le Parisien, de janeiro deste ano, sobre a filmagem. Philippe Godeau, filho de um engenheiro francês que construía pontes no Mali, queria muito fazer um filme ‘africano’. O Senegal terminou sendo uma escolha ditada por facilidades de produção, e segurança. Com sua roteirista, ele fez várias viagens à África. Observava a vida local, entrevistava as pessoas, e ia escrevendo as cenas. O encontro com o mar! É belíssimo. No final, tem uma dedicatória, a alguém com o sobrenome Godot e a Dembo Sy, que imagino seja o nome do pai ou do avô de Omar, já que na ficção de Jornada da Vida o avô de Seydou partiu muito jovem para a França e só voltou a seu país para morrer. Dembo, na ficção, é o amiguinho de Yao que desiste de fazer a grande viagem com ele. Gostei muito de ter visto Yao/A Jornada da Vida. O filme ficou comigo. Deambulei pela Av. Paulista, tomei café. Havia ocorrido algo curioso – divertido? Quando Regina Vasques foi falar comigo, estava na livraria da Reserva. Olhava na estante o volume de Lugar de Fala, da Coleção Feminismos Plurais, organizada por Djamila Ribeiro para a Pólen. Quando entrei na sala e me sentei, algo caiu debaixo do meu braço e me dei conta de que trouxera o livro. No automático, ao conversar com Regina, o colocara ali. Teria sido um vexame ser autuado como rato de livraria. Terminada a sessão, voltei, paguei pelo livro e, no café, iniciei a leitura. Perdi um pouco a noção do tempo. Pela manhã, antes do almoço, fui ao Sesc da 24 de Maio. Queria comprar ingressos de teatro – Macunaíma e Mãe Coragem. O Brecht com Bete Coelho, último fim de semana, estava esgotado, mas consegui um dos últimos lugares para a sessão de ontem do Mário de Andrade de Bia Lessa. Passei em casa para tomar o antibiótico, li mais um pouco e é interessante coimo esse lugar de fala tem a ver com a descolonização do conhecimento, algo que ultrapassa a questão de gênero. Chamei um táxi para ir ao Sesc Vila Mariana e só então fui conferir o ingresso. A peça começava às 8 da noite, e já eram 8h10. Perdi! M… Vou tentar ver mais adiante. Só me restava jantar. Dez da noite já estava em casa. Estou virando um ermitão urbano.

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