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Minha jornada de Pluft a Assis Brasil. E Corneau

Luiz Carlos Merten

07 Dezembro 2016 | 23h58

RIO – Em São Paulo, João Dória botou as asinhas de fora na questão popular com aquela decisão de jogar a Virada para Interlagos. Se o município tivesse dinheiro ele poderia construir um muro como o que delimita a casa dele nos Jardins. Surpreende-se quem quer, ou é tolo, só o que me causou surpresa foi a defesa dessa proposta estapafúrdia pelo secretário de Cultura. André Sturm! No Rio, Marcelo Crivella ameaçou extinguir a Secretaria de Cultura, vinculando-a a outra pasta. Recuou, mas ninguém bota muita confiança nisso. Estou no Rio. Vim para duas visitas a set e permaneço no fim de semana com amigos. Fui hoje a um estúdio na Barra, onde Rosane Svartman filma Pluft, de Maria Clara Machado. Amanhã, no Méier, visito o set de Júlia Rezende, que filma Como É Cruel Viver Assim, com Marcelo Valle e Fabiula Nascimento. Cheguei tarde na sucursal, quase 5 horas. Tinha um monte de matérias. A capa sobre a reestreia de Blow-Up, em cópia copa, que continuou lá dentro, e o Tamo Junto de Matheus Souza, com Leandro Soares e Sophie Charlotte. Confesso que me deram menos trabalho que os filmes na TV, já que pesquisar a programação de amanhã na rede – sem a revista Monet – se revelou complicado. Clicava a quinta, 8, e não vinha. Tive de pedir socorro a Cristina Rio Branco, da Palavra, que faz a assessoria da Rede Telecine. Jesus! Saí da sucursal, na esquina da Presidente Vargas, e vim pela Rio Branco até a Cinelândia, onde havia um protesto na escadaria do Municipal. A Sec é nossa! Vi alguns grupos que se apresentavam. Uma banda de rua, um coletivo afro, de canto e dança. Sarará crioulo! Jantei por ali e agora estou no hotel. Tenho de preparar algum material sobre o centenário de Kirk Douglas na sexta-feira, 9. Cem anos! não me lembro exatamente quando foi, teria de pesquisar, mas o pai de Michael Douglas recebeu, não faz muito tempo, um Urso de Ouro de carreira em Berlim. Apesar da dificuldade de expressão, com a língua enrolada, deu uma coletiva muito interessante. Kirk percorreu todo o espectro do cinema de gênero em Hollywood. Filmes noir, de guerra, melodramas, westerns, épicos, até ficção científica. Fez de tudo, quase sempre interpretando fdp, sons of a bitch, que não se redimiam, e trabalhando com grandes diretores como Vincente Minnelli, King Vidor, Otto Preminger, Howard Hawks, Jacques Tourneur etc. Nesse etc coloco Stanley Kubrick, com quem Kirk Douglas fez Glória Feita de Sangue e, mais tarde, Spartacus, depois de demitir o diretor original, Anthony Mann, o que não o impediu de voltar a trabalhar com o grande Mann em Os Heróis de Telemark. Kubrick! Kirk Douglas surpreendeu meio mundo em Berlim ao dizer que seu filme preferido, o melhor segundo ele, é Lonely Are the Brave, Sua Última Façanha, sobre um caubói do asfalto, escrito por Dalton Trumbo e dirigido por David Miller. Não vou muito adiante hoje, com meus posts, um pouco por estar cansado, mas principalmente porque quero terminar de ler O Inverno e Depois. Demorei a engrenar o novo romance de Luiz Antônio Assis Brasil, mas quando entrei foi arrombando a porta. Estou amando – ainda falta o último capítulo, que deixei para agora. Daria um belíssimo filme, mas Assis Brasil não tem dado muita sorte no cinema. Fábio Barreto edulcorou Videiras de Cristal, que virou A Paixão de Jacobina, um horror, mas pior ainda foi o Concerto Campestre na versão de Henrique Freitas Lima. O regente da orquestra, no livro, é um mestiço que, numa cenas chave, mija no pinico, no quarto ao lado da heroína, e o jato, que o escritor descreve como terminando num mar de espuma, deixa a mulher, uma branquela, louca. Suprimir a carga erótica da mijada e transformar o poderoso maestro em Leonardo Vieira foi uma traição e tanto ao original, sem que isso represente uma crítica ao ator. Ele não tinha o physique du rôle, e além do quê perdeu-se oque havia de transgressor no romance. enfim, recomendo O Inverno e Depois, que faz lindas referências a concertos – o personagem é um violoncelista – e filmes. Julius é obcecado pelo concerto para violoncelo e orquestra de Dvorák, mas também pelo livro de Pascal Quignard sobre o Senhgr de Sainte Colombe, que Alain Corneau transformou num filme para happy few, Todas as Manhãs do Mundo. Não existe culto mais secreto que a esse filme e a seu belíssimo elenco, Jean-Pierre Marielle como Sainte Colombe, Gérard e Guillaume Depardieu como Marin Marais, nas diferentes idades do músico atormentado por nunca atingir a perfeição do outro. Alain Corneau! Ele dirigiu também Noturno Indiano, com Jean-Hughes Anglade, adaptado de outro livro cult, de Antonio Tabucchi. É impressionante como certos grandes diretores nunca alcançam o reconhecimento que merecem. Corneau tende a ser conhecido pelos policiais do começo de sua carreira – Police Python e Série Noire. Foi casado com Nadine Triuntignant e, com ela, integrava uma célula de artistas ligados à Organização Comunista Internacionalista. Uma cena impressionante de Noturno Indiano é o encontro de Rossignol/Anglade com a a vidente deformada, e por isso mesmo sagrada para seus seguidores. Nem ela consegue romper a couraça que Rossignol construiu para se isolar e as perguntas que ele lhe faz, tentando aplacar a dor que lhe corrói a alma, ficam sem respostas.