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Militares que disseram não

Luiz Carlos Merten

28 de julho de 2014 | 08h30

Queria muito ter visto A Leitura de Justino, de Arnaldo André, ontem à tarde, no Festival Latino, mas não deu. Tinha matéria no Caderno 2 e ia bater com o novo documentário de Sílvio Tendler, que também queria ver. Militares da Democracia – Os militares Que Disseram não. Sílvio faz parte da minha memória afetiva e política. Ainda morava em Porto Alegre, nos anos 1980, quando vi Jango. Brinco sempre com meu amigo Dib Carneiro., Vou fazer todo mundo chorar no meu enterro, que espero não seja logo. Quero que toque Coração de Estudante, na voz de Milton. Há que se cuidar da vida… O Brasil fazia os grandes comícios da redemocratização. Fafá de Belém, cantava à capela o Hino Nacional, Luiz Inácio Lula das Silva e Fernando Henrique Cardoso subiam no mesmo palanque. Juventude e fé. Espero nunca perder a minha. Depois de documentários sobre a luta política do povo brasileiro, a tortura e a repressão, depois de militar contra os agrotóxicos, Sílvio Tendler, e tinha de ser ele, lembra os militares que disseram não e permaneceram democráticos. Jango chamou os militares para um jantar. À mesa,. entre outros, Amaury Kruel e Castelo Branco. O primeiro cozinhava o presidente e até o fim fingia estar a seu lado. Castelo Branco orquestrava o golpe, do qual seria o beneficiário, como primeiro presidente militar. Pinochet fez o mesmo no Chile, com Allende. Não creio, até onde sei, que fossem da mesma laia, mas o resultado todo mundo sabe. Mas os militares não eram todos uns monstros. Havia homens de bem. Personagens fordianos. A grandeza na derrota – humilhados, ofendidos, torturados. Militares da Democracia é menos ‘acabado’ (como cinema) que Os Anos JK e Jango, mas gostei demais. Sílvio Tendler recebe hoje a homenagem do 9.º Festival de Cinema Latino-americano. Será às 9 da noite, na tenda armada na Praça Cívica do Memorial, imagino que antes da projeção de Jango. O diretor esteve a ponto de ser trucidado há cinco anos, quando lançou Utopia e Barbárie. Dilma Roussef era pré-candidata e Sílvio, por colher seu depoimento, foi acusado de fazer de seu filme uma peça de propaganda. Foi sua consciência que o levou a colocar Dilma no filme, como foi também a consciência que o leva a fazer justiça aos militares democráticos. Talvez, com a idade, esteja ficando sentimental (mas sempre fui). Comovi-me muito com a figura do almirante negro de Jango. Não, não o lendário marinheiro que acabou com a chibata nos navios, mas o ministro. Sílvio conta, em passant, a reação da cúpula branca da Marinha a essa figura esquecida (eu não me lembrava). E não é que ele tentou salvar o Brasil, mantendo-se fiel ao presidente? Tudo é História (com Maiúscula). Adorei o crédito para Sílvio Tendler, no próprio filme. Cineasta e historiador. Espero que seja uma homenagem tão emocionante quanto a da Calunga de Ouro que ele recebeu no ano passado, no Cine PE.

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