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Midsommar e o terror metido

Luiz Carlos Merten

20 de setembro de 2019 | 22h41

Gostaria de ter ido aos debates sobre A Lei do Desejo e O Invasor no ciclo Pandora – 30 Anos, na verdade, gostaria de ter revisto os filmes. A Lei do Desejo e Labirinto de Paixões representam o ápice das provocações do jovem Pedro Almodóvar, na época da Espanha caní, quando o país se libertava de décadas de opressão, e repressão, franquistas. Vade retro! Na época, não gostei de O Invasor – aquela cena de Paulo Miklos no espelho, saudades de ‘Talking to me?’ -, nem de Crime Delicado. Esse, então, achei o ó, particularmente ofensivo para mim, como crítico e deficiente físico, mas, vá saber? Quem sabe não gostaria na revisão? Ocorre que tive de ver o Rambo na terça e, na quarta, comemorei meu aniversário com um grupo (bem) reduzido, que foi o que me sobrou. Não estou reclamando. Fui ver ontem à noite Midsommar – O Mal não Espera a Noite, de Ari Aster, o diretor de Hereditariedade. Puta filme de m… Aliás, estou convencido. Hollywood criou uma nova modalidade, o terror metido, para quem não gosta de terror. São filmes para ver/ler/interpretar no segundo ou terceiro graus, porque no primeiro não se sustentam. São bem fraquinhos. Hereditariedade, Midsommar, Corra!, Eles. Jordan Peele é uma fraude. Plagiou Ira Levin, The Stepford Wives, que Bryan Forbes filmou – Esposas em Conflito -, mas, como os críticos não conhecem, acharam que ele estava sendo original. Não estava. Como Eles, é um filme que comporta certa leitura – o outro, Trump! -, mas como filme de gênero, assustar, meter medo, são, os dois, bem fraquinhos. Ari Aster é ainda pior. Vi, na capa do Segundo Caderno do Globo, a entrevista de Alessandro Giannini com o diretor, em que ele conta seu trauma. Aos 4 anos, a mãe o levou para ver Dick Tracy e ele ficou tão desesperado quando as metralhadoras disparam que saiu do cinema aos gritos, correndo pelas ruas de Nova York. Nada como ser uma criança traumatizada no 1.º Mundo, no centro do mundo. Imaginem meninos de 4 anos no morro do Rio, entre o fogo cruzado do tráfico e das UPPs, e com o Witzel comemorando. Quantos virariam cineastas, e elegeriam o terror? Psicanálise à parte, esse Aster mama gostoso na tradição. Hereditariedade deve tudo a outro Ira Levin, A Semente do Mal, que Roman Polanski filmou como O Bebê de Rosemary. Midsommar é quase um plágio de The Wicker Man, a versão de 1973, com Christopher Lee, não a de 2006, ou 8, com Nicolas Cage, que foi indicada para ‘trocentas’ Framboesas de Ouro. A original, embora não seja muito conhecida, virou objeto de um culto e inspirou Iron Maiden e Radiohead. Confesso que detestei a releitura. Terror à luz do dia. Bobagem, isso tem quase a minha idade. Terror in Midnight Sun, de 1959, e Os Pássaros – sim, Alfred Hitchcock! -, de 63. O grupo de amigos atraído para um culto pagão num lugarejo remoto da Suécia. Olha o spoiler! Christian, que será imolado depois de fecundar a virgem local, e Dani, que será a sacerdotisa de sua destruição. O lado dark das pessoas, o mal que não espera a noite. No c… ! Só para fechar o post. Acho que minha função, como jornalista de cinema – crítico? – é fazer a mediação entre o autor e o público, elucidar o que ele está propondo. Mas eu defendo o gênero em primeiro grau. Terror tem de me fazer saltar da poltrona. A Freira! Comparativamente, e embora requintado, autoral, bem feito, Midsommar é… Um porre!

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