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Michelle Yeoh faz a diferença em Podres de Ricos

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2018 | 22h26

Assisti hoje pela manhã a Podres de Ricos. Foi uma experiência muito interessante, mas eu hesitaria antes de responder – estética? Sociológica? O filme conta uma histórias velha como o cinema. Não exatamente Romeu e Julieta, mas o casal jovem se ama, ele é o homem mais rico de Singapura e sua mãe não acha que nossa Cinderela mereça seu príncipe encantado. Achei o filme brega além das conta, mas gostei, mais até do que seria tentado admitir. E terminei pensando num filme que não tem nada a ver – Trinta e Dois Curtas sobre Glenn Gould, de François Girard. O filme canadense tenta nos colocar na cabeça de um gênio e termina sendo tão brega, embora em outro sentido, quanto Crazy Rich Asians. Como pessoas comuns conseguem entender o gênio? É algo que ultrapassa nossa compreensão. Como pessoas de classe média, assalariados – você, eu, que ainda temos empregos com vínculos – poderíamos entender o que se passa na cabeça de bilionários? Na abertura do filme de Jon M. Chu, uma mulher chinesa e seus filhos são banidos de um luxuoso – e exclusivo – hotel inglês. Na cabeça do gerente, estão no lugar errado. Ela liga para o marido – do orelhão da esquina, gostei do detalhe -, volta para o hotel, o gerente ameaça chamar a polícia, mas nessa altura o marido da lady em questão já comprou o hotel. A cena é mais que engraçada. Expõe o preconceito contra chineses como existe, no Brasil, contra negros, pobres, nordestinos, índios – estamos falando de quem, mesmo? Bolsominions? Achei Podres de Ricos brega porque pela nossa cabeça – pela minha – não passa o que podem esses bilionários. É outra dimensão. Tudo o que o filme propõe, no limite, não vai além da cafonice mais delirante, mas de uma coisa gostei. A noiva convida as amigas para sua despedida de solteira. Todo mundo nada em dinheiro, mas quando ela anuncia que a boca é livre e tudo o que as convidadas puderem pegar durante um minuto numa loja de grife é de graça, aquelas mulheres quase se matam. A PGR, perdão, a assessora jurídica da família do herói, diz à mocinha – ‘Esses ricaços adoram o que é de graça.’ Ela poderia estar falando do Brasil. Nossa elite é insaciável. Prefere quebrar o País no altar do neoliberalismo a abrir mão de seus privilégios. Adorei ver Podres de Ricos. Desde Jamie Dornan, que fazia propaganda de cueca, portanto tinha de ter o physique tanquinho e a rôle (hein?), nunca mais tinha visto abdominais como o do bilionário desse filme. O engraçado é que o herdeiro chinês tem um nome completamente inglês, Henry Golding. A bobageira sobre o amor ‘eterno’ é a mesma de qualquer comédia romântica made in Hollywood, mas eu confesso que o que fez a diferença para mim, e me fez gostar do filme, foi Michelle Yeoh. Ela é a sogra – a megera, a mãe do bilionário. Michelle já foi tantas vezes heroína que, dela, não esperava outra coisa que um comportamento digno, ético. Posso ser um tolo romântico, sou!, mas é bom acreditar, mesmo em fantasias, ou principalmente em fantasias, que o respeito ainda é um valor. No Brasil atual, isso sim é que é chinês (para quem não fala uma palavra de mandarim).