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Meus olhos que sonham

Luiz Carlos Merten

23 de setembro de 2017 | 09h36

Dava filme, não sei qual, mas dava. Fui tomar café na padaria e vi na banca a chamada do Agora. Médico que esquartejou a amante e respondia a recurso em liberdade matou-se para não ter de voltar à prisão. Estava vestido de mulher, implantou silicone nos peitos, criando seios, e também injetou nas nádegas. Seccionou as veias das duas pernas e morreu sangrando. Que viagem! Lembra um filme de Almodóvar – La Piel Que Habito. Meus amigos dizem que vivo pelo cinema. Gabriel Vilela brinca que tenho celuloide nas veias e até eu admito que talvez não aplique meu pensamento ao cinema, mas que os filmes forjam meu pensamento. E cada filme me cobra suas regras. Não gostei de Mãe!, mas, no meu imaginário, deixei o filme de Darren Aronofsky, que tem coisas interessantes, em stand-by. Finalmente, consegui rejeitá-lo ontem, e graças a outro filme que já havia visto em Cannes e pelo qual entrevistei os diretores para um recente festival de cinema italiano – Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, a dupla de Salvo, que conheci no Festival do Rio. Fui rever O Fantasma da Sicília. O cinema italiano mediocrizou-se tanto que Paolo Sorrentino caga regra como gênio de plantão. O filme de Grassadonia e Piazza é sobre garoto que foi sequestrado pela Máfia para tentar fechar o bico de seu pai, que entrara num programa de delação premiada. O crime hediondo – o jovem ficou dois anos em cativeiro, foi estrangulado e seu corpo dissolvido em ácido. A crueldade não tem limites. Quando entrevistei os diretores, tinha o filme vagamente na memória, porque a verdade é que não me impressionara muito e as lembranças até haviam ficado mais opacas por causa do Fellipe Barbosa, Gabriel e a Montanha, que também estava na Semana da Crítica. Alguma coisa na mitologia bíblica de Mãe! me deu um outro olhar sobre O Fantasma. Anos atrás, Francesco Rosi, Damiano Damiano ou Elio Petri teriam feito filmes de denúncia ou de ‘ricerca’ sobre o tema, investigando as estruturas de poder que regem a sociedade. Grassadonia e Piazza vão por outro caminho. Existe todo um lado factual em O Fantasma da Sicília, mas por outro lado eles introduzem uma personagem totalmente fictícia, a namoradinha do garoto, e narram seu filme do ângulo dela. Ela enlouquece d’amore, viaja nos próprios sonhos e isso autoriza a dupla de diretores de investigar a essência mítica da Sicília, com aqueles templos que já estavam em Kaos, dos irmãos Taviani, baseados em Pirandello. Todo o final do Fantasma me pareceu de uma beleza de cortar o fôlego, uma reconstituição do mundo através do mito numa praia, e o garoto, no seu infinito isolamento, sentindo-se abandonado pelo pai, sonha, também ele, com o mar. O cinema, não me canso de dizer, é uma coisa maravilhosa. Reinventa-se todo dia no meu imaginário. É preciso só manter os olhos bem abertos (fechados?) para sonhar.