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Meus heróis da selva

Luiz Carlos Merten

15 de março de 2016 | 10h31

Tenho tido algumas epifanias, que envolvem filmes em cartaz, como O Cavalo de Turim, de Bela Tárr, e outros a que assisti na Berlinale, como Fuocoammare, de Gianfranco Rosi, e A Lullaby To the Sorrowful Mystery, de Lav Diaz. O próprio Cavalo de Turim eu vi pela primeira vez numa outra Berlinale, em 2011. São filmes autorais, exigentes, e por isso mesmo talvez desconcerte o que vou dizer, a seguir. Além do Batman vs Superman de Zach Snyder, acho que o filme que mais quero ver, atualmente, é Mógli, o Menino Lobo. Havia comprado, e até já falei aqui, o livro de Luis López Varona La Ultima Pelicula de los Grandes Maestros. Entre as obras citadas está o Mógli de Wolfgang Reitherman, de 1967, na Disney, que foi o último filme de Walt. Revi-o no avião da Air France, voltando de Paris. Emocionei-me com a última cena. O menino-lobo, atraído pela garota, a quem ajuda com a água, toma o rumo da aldeia e deixa a selva, abandonando os amigos, a pantera Baguera e o urso Baloo. Os dois, seus protetores, ficam chocados a princípio, mas depois percebem que é o melhor. Mógli é humano, tem de voltar para os seus e só assim estará a salvo do tigre. Tristes, mas amparando-se mutuamenmte, Baguera e Baloo voltam à selva cantando e dançando, uma cena linda que me fez lembrar a última frase de Machado de Assis em O Memorial de Aires, sobre a saudade de si mesmos que consola o casal de velhos. Tudo isso é para dizer que a versão live action de Mógli, cujo trailer tenho visto, me deixa nos cascos. Que selva é aquela? Pois agora, como leitor voraz que sempre fui de Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, fiquei doidão com outro trailer, e é o do Tarzan de David Yates, com Christoph Waltz como vilão e Margot Robbie como Jane, mais o Alexander Skarsgaard como o homem-macaco, se bem que ele é o grande mistério do trailer, porque seu rosto permanece envolto nas sombras e se vê só um corpo musculosos balançando-se nos cipós. Sou capaz de me lembrar de diálogos e parágrafos inteiros dos livros de Edgar Rice Burroughs com o rei da selva. Guardo viva na lembrança a descrição da preparação de Kali Bwana para os ritos sanguinários dos homens-leopardo, com a anexação das garras para esfolar as vítimas. Kali Bwana! Fui sempre fascinado pelas mulheres de Tarzan, não apenas Jane mas La, a sacerdotiza de Opar e Nemone, a rainha da cidade de ouro, com o leão, Belthar, que é a representação de sua força. Ponho fé de que esse Tarzan vai ser um puta filme de aventuras. David Yates terminou muito bem a série Harry Potter, tomara que não erre a mão. Só não sei até que ponto seu Tarzan será, como o de Hugh Hudson, com Christopher Lambert, a retomada do garoto selvagem de François Truffaut. Lambert vive dividido entre o instinto e a cultura repressora, e a cena do laboratório, quando encontra o macaco usado como experimento, é de despedaçar. Não creio que a versão de Yates vá ter essa dimensão dilacerada. O trailer promete mais ação. Só sei que estou numa expectativa danada.