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Meu tempo reencontrado

Luiz Carlos Merten

26 de dezembro de 2013 | 08h55

Quando penso em filmes operísticos me vêm à cabeça Visconti, Visconti, Visconti – Glauber. Não os filmes adaptados de óperas, mesmo pelos maiores – o Don Giovanni de Mozart, a Flauta Mágica de Bergman. Mozart! Em janeiro estreia O Réquiem para Antônio, de meu amigo Dib Carneiro, sobre a relação de Mozart e Salieri. Ele está maravilhado com a montagem de Gabriel Villela, que retribui dizendo que é o maior texto do Dib. Fico feliz por ambos, mas só vou ver na estreia, em 16 de janeiro, dias antes de embarcar para meu tradicional compromisso de todo janeiro. Tiradentes! A Mostra Aurora! Mas volto às óperas. Tenho um carinho especial pela Mimi de Luigi Comencini, Barbara Hendricks. Tenho me lembrado bastante da Bohème dos dois, sempre que passo perlo Teatro Municipal e vejo o cartaz anunciando as récitas da ópera de Giacomo Puccini. Conta a lenda, e não sei se é só lenda, que Puccini teria composto a partitura de La Bohème muito emocionado, lembrando-se de suja experiência como estudante pobre em Paris., Ele teria até chorado ao dar seu adeus a Mimi. O filme de Comencini é quase sempre considerado o primo pobre no ciclo das óperas filmadas dos anos 1980, mas eu me pergunto se não será o contrário – das melhores, e até a melhor? O amor sous le toits de Paris, Che Gelida Manina. Sempre lamentei que Comencini não tenha desfrutado de reputação à altura de seu talento. Oh, sim, ele era olhado com simpatia, mas só isso não bastava – não basta. No meu imaginário, Mulheres Perigosas, com Sylva Koscina e Dorian Gray, é uma comédia engraçadíssima, como as melhores de Dino Risi. O jovem Casanova de Comencini dá de dez no decadente de Fellini e a representação da infância no cinema de Comencini é insuperável. L’Incompresso, Quando o Amor É Cruel, de 1966 ou 67), é uma obra-prima e a crueldade de Lo Scopone Cientifico, Semeando a Ilusão, no começo dos anos 1970, com Bette Davis e Silvana Mangano, é coisa de gênio. A velha jogadora usa seu poder e oprime o casal que sonha vencer – a comédia de Comencini tem sempre, ou quase sempre, uma dimensão social muito forte. E há o menino, o filho de Silvana, responsável pelo twist final. Estou me lembrando agora de que Comencini fez com Laura Antonelli Dio Mio Come Sono Cadutta in Basso, que se chamou Trágica Decadência (acho) e era de um erotismo mórbido à Bolognini que me fascinava. E aí veio a Bohème. A neve, a fome, a tuberculose, o amor. Comencini tem uma frase famosa que Jean Tulard repete no Dicionário de Cinemas. Vou citar de memória. Algo dizendo que o cinema deve favorecer os sentimentos porque (qual é mesmo a palavra?) eles precedem, não?, acompanham as ideias, e não o contrário. Vi tanto Comencini, mas não o seu Ragazzo di Calabria, que sempre me atraiu (pelo título). É curioso como certas coisas (as minhas ‘madeleines’) deflagram viagens no tempo. Lembro-me da minha infância, em Porto Alegre, no bairro Auxiliadora. Perto de casa havia o Cine Rival. Vi muitas óperas filmadas, porque no cinema popular italiano dos anos 1940 e 50 elas davam as cartas, com os corsários de Emilio Salgari. Os pobres, no neo-realismo, eram o biscoito fino que só interessava aos intelectuais. Foi lá no Rival que vi minha primeira Mimi. Descobri depois que o diretor era Carmine Gallone e que ninguém fez mais filmes de ópera que ele. Traviata, Forza Del Destino, Trovatore, Cavalleria Rusticana, Madame Butterfly, Gallone filmou quase tudo, e quase todos. Fez até uma vida de Puccini, Vissi d’Arte. O bom de se perder no tempo é reencontrá-lo.

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