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Meu tempo reencontrado?

Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2018 | 10h20

Tenho muita vontade de voltar a Veneza, para o festival. Todo ano penso em fazer o credenciamento, mas vou deixando e, quando vejo, o prazo se encerrou. Neste ano, ainda havia o agravante da perna – cheguei a cancelar Ouro Preto e Gramado. Por que estou contando isso? Comprei algumas revistas- já contei. A Sight and Sound de novembro, com As Viúvas na capa; a Cinemascope trimestral, ou bimestral, até dezembro, com a bandeira oficial do domínio de La Flor, em homenagem ao filme de Mariano Llinas que a revista considera o evento autoral do ano. O que, exatamente, é La Flor? E como um filme de 14 horas encontra seu lugar no ‘mercado’, que não está formatado para esse tipo de… Produto? Enfim, Sight and Sound tem, como sempre, as páginas finais dedicadas ao Home Cinema e Television. Um dos lançamentos é The Comfort of Strangers, de Paul Schradere, que vi no meu primeiro ano em Veneza – o filme é de 1991. Baseia-se no livro de Ian McEwan, com roteiro de Harold Pinter e fotografia de Dante Spinotti. De volta a Veneza. Anos antes, Nicolas Roeg fizera Inverno de Sangue e agora é um casal que passeia pelas vielas venezianas, Natasha Richardson e Rupert Everett. Encontram outro casal, Christopher Walken e Helen Mirren, antes de se consagrar como ‘a rainha’, mas já imperial. O casal jovem é atraído para a destruição pelos predadores mais velhos. O filme, como outros de Schrader, está sendo redescoberto e revalorizado, e esse está sempre presente no meu imaginário devido a uma circunstância. Nos meus anos em Veneza, repetia sempre a operação – via o último filme, corria para o vaporetto e ia passear na Praça de São Marcos, comendo por ali alguma coisa, antes de voltar ao hotel, no Lido. Só que um dia perdi o último barco e passei a noite caminhando por Veneza. Não conseguiria reconstituir as emoções, mas vi a cidade desacelerar, ir dormir e eu andando por aquelas vielas. Tantos filmes de grandes diretores se passam em Veneza – David Lean, Luchino Visconti, Luchino Visconti, Luchino Visconti, etc. Ler a Sight and Sound me trouxe de volta aquela noite. Pegar o primeiro vaporetto, voltar ao Lido, banho e… Festival! O texto da Sight and Sound evoca o labirinto de vielas e os signos da própria destruição, que Natasha e Everett ignoram. Viajei nas lembranças – do filme, e não apenas. Quem de nós não passou por isso? Os signos tão evidentes são ignorados e só fazem sentido depois. Nunca mais revi The Comfort of Strangers. Nem me lembro do título no Brasil, mas com certeza não é O Conforto de Estranhos. E Sight and Sound tem resenhas de outros lançamentos em DVD. O Buraco da Agulha, que Richard Marquand adaptou de Ken Follet e no qual Donald Suterland está excepcional como espião nazista que naufraga e vai parar naquela ilha, com segredos decisivos sobre o Dia D (que precisa transmitir). Marquand, que morreu prematuramente, fez filmes que eu adorava – esse, O Retorno do Jedi. Não teve tempo de ser grande. Mais um filme na SS – que horror, parece divisão nazista. A Morte Fez Um Ovo, o giallo de Giulio Questi com Jean-Louis Trintignant, Gina Lollobrigida e Ewa Aulin. Há 50 anos a crítica não tinha muito apreço pelo cinema de gênero, e menos ainda pelo giallo. Mas La Morte Ha Fatto Un Uovo sempre teve uma reputação. Cult, bizarro. E Gina… Em 1968, ela fez não apenas o giallo de Questi como Aquele Novembro Maravilhoso, de Mauro Bolognini. Gina! Seu mito talvez tenha sido superado pelo de Sophia Loren, com quem teve, na Itália, uma rivalidade digna de Marlene e Emilinha, no Brasil. Em geral, não me interessam as críticas alheias. O que me interessa é sempre a madeleine, que vai deflagrar minhas viagens em busca do tempo perdido. O tempo reencontrado?