As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Meu momento de verdade

Luiz Carlos Merten

27 de junho de 2015 | 13h12

Clint, claro, American Sniper, e Fellipe Barbosa, Casa Grande. Pete Docter, Divertida Mente. E os latinos – Jauja, de Lisandro Alonso, e Casadentro, de Joanna Lombardi Pollarolo. Estamos no finalzinho de junho, na metade do ano, e eu já tenho metade da minha lista de dez mais do ano. É verdade que, nos últimos anos, minha lista de melhores, no Estado, nem tem chegado a dez. Tem ficado em cinco, seis. Pode ser que o quadro mude no segundo semestre. É cedo para esse tipo de especulação, mas estou muito contente com minha lista – provisória – de destaques de 2015. Poderia somar El Botón de Nácar, de Patricio Guzmán, que vi em Berlim, e O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, premiado em Cannes. E o ‘meu’ blockbuster não foi Vingadores – A Era de Ultron, de Joss Whedon, do qual gosto bastante, mas Jurassic World, de Colin Trevorrow, com a história dos irmãos e o casal ‘hawksiano’ formado por Chris Pratt e Dallas Bryce Howard. American Sniper foi chamado de patrioteiro e Casa Grande definido como sociologia de segunda, ou de araque. Ai, ai. Para que algumas pessoas percam em definitivo a confiança no meu gosto ‘esdrúxulo’, quero dizer que, mesmo sem poder fazer uma crítica formal de Cidades de Papel, gostei demais do novo filme adaptado de John Green (e que deve trazer o escritor ao Brasil, na próxima semana. Vou entrevistá-lo no Rio). Cidades de Papel me pareceu a perfeita combinação de Conta Comigo e Clube dos Cinco, e os filmes de Rob Reiner e John Hughes viraram obras-faróis, representativas de suas gerações. Na capa do Blu-ray comemorativo dos 30 anos de Clube dos Cinco, há uma citação da revista Entertainment Weekly – ‘O melhor filme de estudantes já feito.’ Não tenho tanta certeza. Talvez seja Cidades de Papel. Não sei se isso vai ocorrer com o longa de Jake Schreier – se vai virar obra de culto -, mas acho que o que o cara tirou de seus atores, e especialmente de Nat Wolf, que faz o protagonista, me deixou siderado. O reencontro dele com Margo, Cara Delenvigne, é de uma delicadeza rara, um momento especial de intimismo que poucos filmes ‘adultos’ logram oferecer. Já que falei numa cena de Cidades de Papel, vou citar outra (de outro filme). Se tivesse de citar uma só cena para resumir o ano, até agora, no meu imaginário, seria de Casadentro. Patricia, a filha de Dona Pilar, no piso superior da casa, observa a mãe que brinca com a cachorra, Tuna, no pátio. Entrevistei Joanna Lombardi, filha de Francisco Lombardi, e ela revelou que também é sua cena preferida no filme. Em busca de momentos de verdade, e num trabalho maravilhoso com os atores, ela conceituou Casadentro como um filme de planos contínuos (sequenciais). A cena em questão metia-lhe medo. A mãe embaixo, a filha em cima. Ela não conseguia ver a cena sem corte e, se cortasse, toda a concepção do filme ruiria. Com seu fotógrafo, bolou a solução, uma coisa que tem a ver com reflexo e não vou  detalhar para não tirar a graça, o encanto da descoberta. Lisandro Alonso me deixa siderado por cortar – a ruptura que define Jauja e muda tudo no filme, como em Mal dos Trópicos, de Apíchatpong Weerasethakul. Me amarro em Joanna porque ela não corta. A diversidade estética (e de temas, gêneros) é o que me move no cinema. Minha lista provisória que o diga.