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Meu mistério renovado de… Batalha!

Luiz Carlos Merten

15 Maio 2017 | 19h02

LISBOA – Cheguei ontem e descobri que era o último dia do IndieLisboa. Sobrou-me ver o Alex Ross Perry, Golden Exits, definido no catálogo como uma comédia neurótica à Woody Allen. Não posso dizer que tenha sido perda de tempo, mas tenho de admitir que Sarah Jessica Parker não me fala muito. Nunca fui de série, mas, pelo cinema, ela leva um baile em Sex and the City. Kim Catrall e Cynthia Nixon… Bye-bye, Jessica. Emendei no domingo o Corra, que aqui se chama Foge e me pareceu bem fraudulento. No gênero terror social, só o colonialismo, associado ao ufanismo do Oscarsoblack, poderia explicar que esse filme meia-boca possa vir a ter mídia mais favorável que o brasileiro O Rastro, que também entra na quinta-feira. O Perry foi meu último filme do domingo. Comecei com o Foge, emendei com um Kenji Mizoguchi. Há uma retrospectiva aqui do grande diretor japonês e, agora, tenho de fazer uma confissão. Nunca tinha visto o último Mizoguchi, Rua da Vergonha. Supri a lacuna e descobri na hora porque Jean-Luc Godard sempre foi louco pelo filme. A gênese de Viver a Vida, com todas as diferenças que possam ter, e têm, está toda em A Rua da Vergonha. É minha terceira viagem a Portugal. Desta vez, dias noites apenas. Amanhã à tarde já sigo para Nice, e Cannes, onde, na quarta, começa o 70.º festival. Três vezes Lisboa e três vezes o mesmo tour de dia inteiro, que refiz nesta segunda. Fátima/Batalha/Nazaré/Óbidos. Sei que são questões transcendentais – Deus existe? E a vida após a morte? -, mas chega uma hora que eu começo a ter umas ideias esquisitas. Pouco importa se Deus existe, mais importante é o conceito, que levou o homem a criar monumentos à glória de Deus como a Catedral de Notre Dame, o Mosteiro da Batalha e o teto da Capela Sistina. Em Fátima, você ouve a história dos pastorinhos e que Lúcia, após a morte prematura de Jacinta e Francisco, Levou uma vida retirada, no claustro. Eu, na Batalha, tenho a sensação, não sei se mística, de que poderia passar o resto da vida admirando a perfeição daquela igreja. Deus! Que coisa mais linda! Não existe igreja mais esbelta nem elegante! E os vitrais! Algo se produz quando a gente está ali dentro. O mistério da luz. As capelas imperfeitas, porque não foram concluídas. Sinto que ainda não terminei com a Batalha. Deus, se existe, que me permita voltar. E depois Nazaré, aquela praia vista do alto. E Óbidos. A cidadezinha medieval murada tem um encanto todo especial. Tem algo mais. Uma igreja, com nave e altar, convertida em livraria.Templo dos livros! Pode ser que me engane. A Portugal em crise de Miguel Gomes em As 1001 Noites parece ter-se superado. Lisboa, e não apenas, está com outro astral. Espero comentar isso com os amigos portugueses em Cannes.