As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Meu gosto não anda batendo com o do público

Luiz Carlos Merten

15 Outubro 2015 | 09h56

Minha filha foi ver Perdido em Marte. Definiu o filme como uma Sessão da Tarde para menos. Contou-me que o Matt Damon gravou um vídeo para a Nasa dizendo que, se o anúncio de que existe água em Marte tivesse sido feito um pouco antes, sua vida teria sido bastante mais fácil. Very funny. Lúcia e eu devemos ser exceções, a minoria da minoria. Perdido em Marte está sendo um êxito planetário, o maior de Ridley Scott em anos – décadas. Juro que não entendo, mas quem sou eu para discutir o gosto do público. Inversamente, gostei muito de A Travessia e o filme de Robert Zemeckis está sendo um flop gigantesco nos EUA. Aui também, imagino. Achava que era filme para Oscar, mas agora já estou duvidando, e não porque ache que tenha perdido suas extraordinárias qualidades. Mas o assunto do post não é exatamente esse. Havia comprado uma revista Empire cuja capa era dedicada a Star Wars – O Despertar da Força. Lembrava-me de que tinha uma matéria sobre A Colina Escarlate. Gostei muito do novo Guillermo Del Toro. Na minha fase atual, de divórcio do gosto popular, terei condenado o Del Toro ao fracasso? O texto da revista descreve uma visita ao set. American gothic, o gótico americano. A casa, Allerdale Hall, é uma personagem tão importante quanto a escritora Edith Cushing, uma mistura de Edith Wharton com Peter Cushing, ou Sir Thomas Sharpe. A casa foi planejada para expressar a mente. Edith, que escreve histórias de fantasmas, descobre que eles existem, mas são menos perigosos que os vivos – os terríveis humanos. Aproveito para dizer – embora Jessica Chatain não valha, aos olhos da indústria, os US$ 20 milhões que Hugh Jackman ganha por filme, a moça compete com ele em produtividade. Todo ano temos agora dois ou três filmes co-estrelando Jessica Chatain. Ela precisou aprender a tocar piano para fazer o papel. Apesar do seu esforço, A Colina é do par romântico Mia Wasikowska e Tom Hiddleston. Volto a Zemeckis e a A Travessia. O diretor define o gesto de Philippe Petit como o crime artístico do século passado. Conta como foi reconstituir aquele balé no fio da navalha. Adorei a definição. A Travessia, já escrevi aqui e no jornal, é menos um tributo ao equilibrista Petit que às torres gêmeas. Ao estender aquele fio e caminhar entre elas, Petit desafiou a gravidade, o engenho humano. Cometeu um crime, mas deu alma às torres. Tenho pensado no assunto. As torres viraram dois poderosos símbolos do poderio (do capitalismo) norte-americano. Mas foram violadas por Petit. Pergunto-me se Osama Bin Ladden, que era jovem em 1974, não terá desenvolvido sua obsessão pelas torres a partir daí? Aos 17 anos, treinado e financiado pela CIA, ele pode muito bem ter sabido da façanha ‘artística’ de Petit. Para romper em definitivo com a ‘América’, que crime maior do que derrubar as torres, pelo que representavam? O filme de Zemeckis relata fatos que ocorreram muito antes do trágico 11 de Setembro, mas, no fundo, o que interessa ao diretor é o que ainda estava por vir. Espero não estar tecendo nenhuma teoria da conspiração. Só quero compartilhar questões que o ’em torno’ de A Travessia despertou em mim. E chamar a atenção, mais uma vez, para o filme. que é muito, muito bom.