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Meu coração navegador

Luiz Carlos Merten

27 de julho de 2013 | 09h42

Vou misturar alhos com bugalhos. Não sei nem quando começou, mas nos últimos dias deito e me acordo com Kleiton e Kledir cantando nos meus ouvidos. Vira virou! Vou voltar na primavera/e era tudo que eu queria… Tenho tentado segurar o leme dessa nave incandescente que incendeia minha vida, guris. Meu Deus do céu! Ando até preocupado com isso. Nos últimos tempos, tudo vira madeleine para mim. Tempo perdido e reencontrado, como se, no inconsciente, estivesse tentando zerar alguma coisa. O quê? Ando numa fase em que busco, em tudo,  a herança de Marcel Proust, como se a obra fundadora – de tudo – fosse o monumental romance que relata a busca do tempo perdido. Deve ser mesmo (a pedra de toque) para que dois grandes autores como Luchino Visconti e Joseph Losey, ambos de formação marxista, buscassem tanto a apropriação/adaptação do livro. Mas se eu levo terra nova daqui, ainda quero ver de novo o passaredo, pelos portos de Lisboa. Voa voa, que eu chego lá. Tenho esse coração navegador, essa vontade de sair por aí, sem destino. Deve ser porque, nos anos 1960, quando era jovem, não fiz (todas) as loucuras que queria e agora, quase 68, o ano que nunca termina, sinto que deve ser tarde para isso. Tergiverso. Acordei hoje meio mal. Redigi ontem minha entrevistas com Stephen Daldry para o Caderno 2 de amanhã. Ele começa a filmar na semana que vem, no Rio, em parceria com a O2. Trash baseia-se no livro infantil de Andy Mulligan. A entrevista foi ótima, mas não creio que tenha conseguido reproduzi-la em minha matéria. Ah, ela está boa, bem escrita – desculpem a falta de modéstia -, estão lá coisas essenciais que Daldry me disse, mas estava a caminho de casa, ontem à noite, quando tive a sensaçãso de que faltava alguma coisa. Tentei me distrair evocando Machado (de Assis). O narrador mata a borboleta preta que o incomodava e, depois, sentindo-se culpado, pergunta-se por que ela, a borboleta, não era azul? Daldry me disse coisas bem interessantes sobre o Brasil, sobre a nossa alegria. Ele ve muita esperança no Brasil e é disso que seu filme vai tratar. Wagner Moura me havia matado a charada – o livro é infantil,. e foi isso, essa pequena grande definição, que não coloquei no texto. Falei de tudo, menos dessa chave – havia uma em Tão Longe e tão Perto, lembram-se – que impulsiona os três garotos do lixão, que retomam o legado do personagem de Wagner, um herói, e embarcam na aventura transformadora. A inocência perida da infância, o difícil caminho da maturidade. Não é esse o tema de Billy Elliot, de O Leitor, os maiores filmes de Stephen Daldry? Não é esse o tema de Zarafa, a bela animação de Rémi Bezançon e Jean-Christophe Lui, programa que todo adulto, mais até que as crianças, deve ver? Billy Elliot! Quando o filme surgiu, em 2000, lembro-me de alguns narizes torcidos. Alguns coleguinhas tomaram ao pé da letra a história do menino que quer ser bailarino como viadagem, quando o ponto do filme é justamente, entre outras coisas, desmontar o mito de que bailarino tem de ser gay. Cada vez me convenço mais de que Billy Elliot é mais do que a feel-good movie. É a sua reputação. Um filme positivo, pra cima e pra gente se sentir bem. Billy Elliot, o filme, cresce a cada visão e, quando estou zapeando na TV e o filme entra, paro tudo para ver, comovido, mais que a história de Billy, a de seu pai, o minerador durão que, num momento, chega a trair a classe, furando a greve, por causa do filho. E, no final, o voo do garoto no palco. Espero aquilo e, cada vez que ocorre, é o mesmo alumbramento, como se fosse a primeira vez. Puta filme. No meu imaginário, o Billy Elliot que refaço no inconsciente, vira uma coisa imensa,. uma obra-prima. Talvez seja isso, afinal, que esteja me levando a Kleiton e Kledir. Tão faminto de alegria… Voa, voa que eu chego lá. A música, essa sim, faz a gente se sentir bem. Procurem no YouTube. Carpe diem. Make your day, como diz o professor Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos, de Peter Weir.

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