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Meu conto tibetano

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2020 | 06h50

PARIS – E, afinal, não fui ao evento Lula Libre à Paris. Até tentei, mas era longe e me informaram que havia uma liste d’attente bem longa. Resolvi não arriscar. À tarde, havia entrevistado Chiara Mastroianni, e a entrevista foi ótima. Chiara, filha de dois monstros sagrados – Marcello e Catherine Deneuve -, atriz, cantora, femme engagée. A entrevista foi pelo filme de Christophe Honoré, Chambre 212, pelo qual ela foi melhor atriz na seção Un Certain Regard, no ano passado, em Cannes – a mesma que Karim Aïnouz venceu com A Vida Invisível. Preciso verificar com o Elias, da Imovision, a data de lançamento no Brasil, porque quero dar logo a entrevista. A questão é que o horário da entrevista – no meio da tarde – lascou minha programação de cinema do dia. Terminei perdendo filmes que queria ter visto, mas vi um Robert Wise que não conhecia – o noir Odds Against Tomorrow/Homens em Fúria, no Brasil (Le Coup de l”Escalier, na França), de 1959, com Harry Belafonte e Robert Ryan. Na sequência, e já que não ia ao show do Lula – falei no post anterior em comprar ingressos, mas era grátis, só com nome confirmado, por causa da lotação -, terminei vendo uma raridade. Um filme do Tibete, presenté (produzido) por Wong Kar-wai. Jinpa, Um Conto Tibetano, de Pema Tseden, Curtíssimo – 80 e poucos minutos. Achei fascinante. Um caminhoneiro numa paisagem imensa. Ele distrai-se olhando os pássaros, atropela – e mata – um carneiro. Surge do nada esse homem a quem ele dá carona. O estranho está indo matar o homem que caça há dez anos. Ambos, o caminhoneiro e o estranho, chamam-se Jinpa. Há um jogo de transferência de identidades – o ator é o mesmo -, e no final surge na tela um provérbio tibetano. ‘Se eu te conto o meu sonho, tu o esqueces; se eu ajo segundo meu sonho, tu com certeza te lembras dele; mas se eu te implico no meu sonho, ele também é teu.’ Gente mais bonita. E a trilha – O Sole Mio e um rap de letra provocativa (Lim Giong e Point). Jinpo ganhou o prêmio de roteiro na mostra Orizzonti, de Veneza, em 2018. Ganhou o prêmio da crítica e o Cyclo de Ouro, o prêmio principal, no Festival de Cinema da Ásia de Vesoul, em 2019. Confesso que havia visto muitos filmes sobre o Tibete, mas um filme tibetano? Pema Tseden é filho de nômades. Foi o único de três irmãos a ter acesso ao estudo e a formar-se. Virou escritor e cineasta. Essas coisas me emocionam. Há um mundo que a gente desconhece. Estou escrevendo o post e olhando para a capa da Cahiers de março. Virginie Efira – os filmes mais aguardados de 2020. Paul Verhoeven, Benedetta. Uma freira italiana do século 17. Imagino que seja uma cena de sonho. Benedetta despe o Cristo na cruz e se joint à lui. Junta-se a ele, o que isso quer dizer? Faz sexo? Verhoeven é f… E eu amo, sempre amei, o cinema dele.