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Meu adeus ao Wilker

Luiz Carlos Merten

05 de abril de 2014 | 13h42

RIO – Meu amigo Dib Carneiro acaba de traduzir uma peça que seria dirigida por José Wilker. Estávamos no avião, vindo para a estreia do novo infantil de nosso amigo Gabriel Villela com Luana Piovani – daqui a pouco, no teatro do Jardim Botânico -, quando fomos localizados pela Eliana, pauteira do Caderno 2. Wilker morreu, de enfarto. Aos 66 anos. A primeira coisa  que me veio – Wilker seria homenageado no próximo Cine PE. Ia receber um prêmio de carreira, umas carreira que não foi foi só no cinema, mas abarca televisão e teatro. Vai virar agora uma homenagem póstuma. Que coisa! Pensei nos bordões que o Wilker criou, em Dona Flor (chamando as intimidades de Florípedes de ‘minha peladinha’) ou no recente remake de O Bem Amado, como o coronel desalmado (‘Vá para o quarto, hoje vou lhe usar’, dizia para a mulher que depois mandou matar). Wilker faz parte do imaginário de todos nós. Foi o Tiradfentes de Joaquim Pedro em Os Inconfidentes, Vadinho em Dona Flor, de Bruno Barreto, Lorde Cigano em Bye-Bye Brasil, de Cacá Diegues. Com Cacá, foram tantos filmes, tanta coisa boa – Xica da Silva, Bye-Bye Brasil, Um Trem para as Estrelas, Dias Melhores Virão, O Maior Amor do Mundo… Estou na sucursal do Estado, no Rio, e ouço os comentários ao redor. Wilker morreu dormindo. Na TV, colegas dão depoimentos emocionados. Falam do Wilker Leal, engraçado. Quando as pessoas morrem, as diferenças em geral acabam e a gente tende até a idealizar. Mas foi assim que sempre vi o Wilker, em todos os contatos diretos que tive com ele. Acrescentaria que seu humor era cáustico, ferino, irônico. Mas nunca o vi maldoso. Era do bem. Sua carreira no cinema começou lá atrás – com A Falecida, de Leon Hirszman, em 1964 ou 65. Foi uma participação não creditada, e a gente até se surpreende, qwuando ele aparece, ainda franguinho. Fez El Justiceiro, com Nelson Pereira dos Santos, A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, O Casal, que ou me engano ou foi sua primeira parceria com Sônia Braga. Tanta, tanta coisa. Na TV, fez todas aquelas novelas – vou me lembrar de bem poucas, até porque poucas novelas conseguiram me fisgar. Os Ossos do Barão, Gabriela (Sônia Braga, ele era Mundinho Falcão), Roque Santeiro, Fera Ferida (pela qual foi melhor ator na APCA), A Próxima Vítima… Em A Senhora do Destino, criou Giovanni Improtta, que virou personagem e até título de um filme recente, que também dirigiu. Giovanni Improtta passou no Cine PE do ano passado. Tinha um começo muito bom, um final melhor ainda – o problema era o miolo. Zé Wilker amava o cinema. Quando conversava com ele, sempre havia o momento – o que tem visto, do que tem gostado? Gostava de coisas cabeça. Não por acaso fez coisas importantes também no teatro. Como já disse, estava no avião, as portas se fechando, quando a Eliana nos localizou (no celular do Dib). Estou lendo um thriller, Manuscritos do Mar Morto. O livro é esquisito, ainda estou tomando pé, mas o persopnagem mais simpático, um garoto, morreu no minuto seguinte que tentei voltar à leitura. Nunca vou saber se chorei por ele, ou pelo Wilker. Sei, sim, foi pelo Zé e pelo muito que ele me deu no cinema.

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