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Meu adeus a Sue Lyon, a Lolita de Kubrick (e a atriz de Huston, Ford, Gordon Douglas)

Luiz Carlos Merten

29 de dezembro de 2019 | 09h55

Não sei realmente o que anda ocorrendo comigo. Ontem, é verdade, precisei de atendimento na emergência do 9 de Julho – uma tosse que foi aumentando, peito congestionado, dificuldade para respirar à noite. Já estou medicado, e melhor. Coração, apesar dos senões, zero bala. Não sei se mamária, que fiz há dez anos, ou mais, tem prazo de validade, mas todo exame que me fazem dá que o coração é de guri. Pois que seja. Pelo visto, vou morrer de qualquer outra coisa, menos coração. Mas prosseguindo com a observação inicial, o ‘não sei’. Tenho vindo cedo para casa, todo dia. Ontem, jantei num francês aqui perto, sem beber álcool, vim para casa e às 9 e pouco já estava na cama, lendo o Chico, Essa Gente. No Jornal Nacional, no qual não prestei muita atenção – imagens convulsivas de um ataque do terror na Somália -, vi que havia morrido Sue Lyon. É preciso automaticamente acrescentar – a Lolita de Stanley Kubrick! Até pensei em postar, mas deixei para depois – para agora. Sue Leyon trinha 13 anos mas parecia 17 ou 18 quando Kubrick a escalou para fazer a ninfeta de 12 que seduz o maduro Humbert Humbert, interpretado por James Mason. Aliás, seduz não é bem o termo, porque Kubrick em nenhum momento cria uma personagem provocante. Ela é e age como uma garota. Vai à piscina, com aqueles óculos. Chupa o pirulito, e agora até parei. Será que a cenas existe ou é fantasia minha, revendo o filme no imaginário? Kubrick teceu uma comédia de humor negro – a primeira, que perfeccionou depois com Doutor Fantástico. Se é verdade que seu sonho era fazer a obra-prima definitiva de cada gênero, então talvez tenha sido por isso que voltou ao humor negro (ainda se pode dizer assim, sem ser racista?). Lolita não repercutiu como ele queria, e olhem que o livro de Vladimir Nabokov provcoou grande escândalo. Havbia o tema controverso – a pedofilia -, mas havia a escrita. Kubrick foi acusado de ‘normatizar’ Nabokov. A garota parecia mulher, os floreios visuais e utilização da música – o tema do chiclete, Yi-Yi – eram substitutivos do Verbo, segundo Nabokov, mas pouca gente notou. Faz muitos anos que não revejo Lolita e o que guardo do filme são as performances de Shelley Winters, como a mãe com quem Humbert se casa para ficar próximo da filçha e Peter Sellers, antes do inspetor Clouseau e do Dr. Fantástico, como o depravado Quilty, que termina fazendo com Lolita o que Humbert gostaria de ter feito, e por isso Kubrick inverte tudo e começa o filme onde Nabokov termina o livro – com Humbert disparando em Quilty. Falei muito do filme, e nada de Sue, a atriz. Na época, provocou sensação – Sue não foi à estreiua, porque era de mermor, mas o filme não era muito ousado, pelo menos sexualmente. Sua ousadia estava em outra parte – no desenho de uma sociedade doente, vivendo de aparências. E, depois, é curioso pensar – quem talvez devesse haver adaptado o livro talvez fosse o francês Eric Rohmer, cujo cinema é impregnado por homens maduros atraídos pelos joelhos de menininhas. (Humbert, como interpretado por James Mason, é mais infantil, ou imaturo, que seu objeto de desejo.) Seja como for, a personagem marcou e, na sequência, a jovem atriz foi muito mais aquilo que o público esperava que tivesse sido com Kubrick em A Noite do Iguana, que John Huston adaptou de Tennessee William,s. Richard Burton, como nosso padre fornicador favorito – após o Vincente Minnelli, Adeus às Ilusões -, compensa o silêncio de Deus com bebida (e sexo) naquela praia mexicana, e na estalagem de Ava Gardner, onde chegam todas aquelas turistas norte-americanas reprimidas, incluindo a missionária Deborah Kerr (e Sue, num papel de fugitiva, querendo viver um grande amor.) Emendando Kubrick com Huston, ela chegou a John Ford – Sete Mulheres, talvez o filme mais estranho do mestre, uma missão sitiada na China, e a personagem mais improvável, a médica materialista Anne Bancroft (substituindo Patricia Neal), se sacrifica para que as outras seis mulheres, e principalmente Sue, tenham um futuro. Foi um começo de carreira glorioso e Sue acrescentou ao currículo um Irivin Kershner (O Magnífico Farsante) e um grande Gordon Douglas (Tony Rome, com Franlk Sinatra), antes de prosseguir de forma ziguezagueante até nulidades como O Dias do JUízo Final e Alligator, um daqueles jacarés gigantes. A própria Sue deve ter chegado à conclusão de que já havias dado o que tinha de dar e parou com a curva descendente. No imaginário dos cinéfilos, será sempre Lolita, mesmo que tenha morrido como uma senhora de 73 anos.