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Meu adeus a Richard Attenborough

Luiz Carlos Merten

26 de agosto de 2014 | 16h01

Morreu Richard Attenborough – no domingo, aos 90 anos. Confesso que só descobri o fato hoje pela manhã, o que me transforma no último com as primeiras. Mas não creio que seja o caso de ignorar. Embora tenha sido ator por muito tempo – desde Nosso Barco, Nossa Vida, que Noel Coward e David Lean codirigiram em 1942, a carreira oferecia um interesse limitado, mesmo que tenha feito outros bons filmes na Inglaterra. Permanecia um ator local. A popularidade mundial veio através de Hollywood, com Fugindo no Inferno, de John Sturges, e O Voo do Fênix, de Robert Aldrich, nos anos 1960. A partir de 1969, tornou-se diretor, primeiro com o musical antibélico Oh Que Bela Guerra!, que permanece como o mais endiabrado e surpreendente de seus filmes. Soldados cavam trincheiras cantando operetas, generais os enviam para a morte dançando quadrilhas. Attenborough nunca mais repetiu nada parecido. Seu Chorus Line era bem sem graça. Ele próprio não se considerava diretor, mas um ator/manager. Sua habilidade, confessou certa vez, estava em saber retirar dos colegas atores o melhor que eles podiam dar. Durante 20 anos perseguiu o sonho de fazer o filme sobre a vida do Mahatma Gandhi. Para concretizá-lo, hipotecou a casa e vendeu objetos de arte. Levantou US$ 22 milhões. Todo mundo dizia que estava louco, que ia se arruinar. O filme faturou 20 vezes mais – e ainda ganhou os principais Oscar de 1982. Melhor filme, diretor, ator (Ben Kingsley), roteiro (John Briley) etc. Épico, intimista e hagiográfico, foi um dos precursores do politicamente correto, um filme digno e chato, que ignorou aspectos mais controvertidos da vida de Gandhi – quase me mataram quando escrevi isso, anos atrás, no Estado. Um David Lean teria achado o tom mais adequado para resgatar a luta do apóstolo da não violência, mas um leitor enfurecido me acusou de ser do ‘mal’. Eu! Attenborough seguiu filmando, virou sir, mas os épicos, todos bem intencionados, foram ficando menos interessantes. Um Grito de Liberdade, sobre o apartheid, chegou a ser bastante contestado. Como ator, criou personagens potencialmente atraentes, um sociopata em Brighton Rock, que Roy Boulting e Terrence Rattigan adaptaram de Graham Greene, um assaltante de bancos em Os Sete Cavalheiros do Diabo, de Basil Dearden, mas sua correção, como a de seu contemporâneo John Mills, o pai de Hayley, não lhe permitia voar. Como diretor foi bem mais modesto que seus muitos prêmios sugeriam. Que descanse em paz.

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