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Meu adeus a Fábio, que realizou o sonho de Glauber e fez o sertão virar mar

Luiz Carlos Merten

21 de novembro de 2019 | 12h58

Confesso que ontem emendei filmes – Azougue Nazaré e Invasão ao Serviço Secreto. Entre um e outro, dei uma passada pelo palco montado na Praça da República para o show comemorativo do Dia da Consciência Negra. Comi pastel (de carne, delicioso), fiquei por ali um tempo. Cheguei em casa e fui direto para a cama. Li. Somente hoje pela manhã, a Dóris, ligando de Porto Alegre, me informou o que para mim foi novidade. Fábio Barreto morreu ontem à noite, após quase dez anos – dez! – em coma. Sempre perguntava por ele – para o Bruno, para a Paula. Para Luiz Carlos e Lucy, nunca, por um certo pudor, porque me parecia que poderia ser muito doloroso comentar com os pais a situação em que (sobre)vivia o filho. Há dez anos, defendi Lula – O Filho do Brasil, contra tudo e todos. Eram outros tempos e nunca fui impedido, no Estado, de fazer numerosas matérias sobre o filme, o diretor e o ator que fazia o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – Rui Ricardo Dias -, as pré-estreias no ABC. Hoje, face à polarização que tomou conta do Brasil, não sei se teria tanto espaço – duvido – para debater o Lula, filme. Naquela época, já havia uma polarização em processo, mas não a percebi, não percebíamos. Era um tempo em que comentários eram permitidos no blog, e após o acidente de carro que deixou Fábio em coma, sugiram as manifestações de ódio. Deus é pai, castigou esse fdp. Era o que escreviam. O acidente havia sido um ato divino. Falei, no post anterior, e sem saber do Fábio, no radicalismo político/ideológico (e religioso) que se instalou no Brasil. Não é o Deus do amor, não é o Cristo misericordioso, mas uma divindade vingativa e cruel. Isso, sim, me parece coisa do demo. Regozijar-se com o sofrimento dos que não pensam – ia escrever como a gente; mas não – como eles, abrir a porta do inferno, proclamar o ódio. Não creio que Fábio tenha sido um grande cineasta, mas teve seus momentos. Levou O Quatrilho para o Oscar, e com Lula (o filme) realizou o sonho de Glauber, fazendo o sertão virar mar. Sempre vi o filme dessa maneira. Se muita gente faz críticas a Lula, o personagem, o real e o fictício, o roteiro do filme, com muita sutileza, mostra que ele herdou suas melhores qualidades da mãe guerreira. Se defeitos tem – quem não? -, talvez tenham vindo do pai, que deixou a Dona Lindu o encargo de carregar a família, mantê-la unida. Admirável Glória Pires. Além de Lula, fez O Quatrilho e o primeiro filme de Fábio, Índia, a Filha do Sol. Lula, sindicalista, em plena ditadura militar – a que Bolsonaro defende -, conduziu greves vitoriosas e reuniu, naquele estádio, dezenas de milhares de operários nordestinos, como ele (e não apenas). Fez o sertão virar mar – de gente. Sempre amei aquele final do filme. Defendi-o desde a primeira vez que o vi. Fábio Barreto deu-me uma de suas últimas entrevistas. Não consigo passar pelo Hotel Pestana da Brigadeiro Luiz Antônio sem me lembrar dele, da nossa conversa no bar. Fábio estava pilhado, sofrendo uma pressão imensa. Hoje posso dizer que era estresse emocional. O acidente ocorreu na volta dele ao Rio, não lembro se um ou dois dias depois. Foi muito em cima, e eu estava sob o impacto do seu entusiasmo. Não sou nenhum santo, claro que não, mas não consigo entender nem aceitar esse ódio. Aquelas pessoas que, há dez anos, exultaram com o acidente estarão agora comemorando a morte? Por favor, me digam que não.