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Mesmo estando só…

Luiz Carlos Merten

23 de maio de 2016 | 19h34

PARIS – Já contei para vocês que adoro esta cidade e que tenho minha trilha sonora – a versão brasileira de um hit dos anos 1950, quando a música francesa era importante no Brasil (e ganhava letras em português, cantadas quase sempre por Ivon Curi nas chanchadas da Atlântida). Mesmo estando só/eu me sinto feliz, há-hã/Cantando a canção que embala Paris… Cheguei e já me meti no cinema, mas fui ver coisas antigas, nada novo. Há um ciclo John Ford, não resisti e fui rever La Pursuite Infernale, que é como se chama aqui My Darling Clementine, de 1946 – Paixão dos Fortes no Brasil. A versão fordiana do tiroteio do OK Corral segue a tradição que Ford afirmava ter ouvido do próprio Wyatt Earp, quando virou consultor de faroestes. Anos mais tarde, um artigo na revistas Life apresentou uma outra versão da história e Earp e seu amigo Doc Holliday passaram de heróis a vilões. Se é verdade que o cinemas de Ford mostra como é difícil construir uma civilização, A Perseguição Infernal/Paixão dos Fortes é impecável como recriação da vida cotidiana em Tombstone, nos tempos do Wild West. A cena do teatro e a Clementine de Cathy Downs são siderantes e tive a impressão de estar vendo o filme pela primeira vez, de tanto que viajei naquelas imagens. Emendei com um Satyajit Ray, Charulata, dos anos 1960, premiado em Berlim, que não conhecia. Incrível, fantástico, extraordinário – entrei na Faculdade de Arquitetura das UFRGS em 1964, no ano em que Ray levou Charulata à Berlinale. Havia não propriamente um cineclube, mas um centro cultural na faculdade. O golpe acabara de ocorrer e a programação era bem alternativa. Lembro-me de haver assistido a documentários de Jonas Mekas e Satyajit Ray, um muito bonito sobre Rabindranath Tagore. E enquanto eu via o filme o filme sobre Tagore, Ray ganhava Berlim com Charulata, que é uma adaptação do escritor. Tudo, sempre, termina por se encaixar. Já estou na terça, 24, cinco horas adiasnte de vocês. Amanhã, quarta, começa no Reflet Médicis, cinema de arte do Quartier Latino, a lima quadra do hotel em que estou, Cannes em Paris, com a reprise da seção Um Certain Regard. Quero repescar algumas coisas que perdi. Mas também gostaria de rever Exodus (Otto Preminger), De Repente no Último Verão (Joseph L. Mankiewicz), House of Strangers/Maison des Étrangers (de novo Mankiewicz, e o filme chamou-se Sangue do Meu Sangue no Brasil), Gata em Teto de Zinco Quente (Richard Brooks). Todos voltaram versões restauradas, cópias zero bala. Só na França, esse sonho de cinéfilos. O Brooks me interessa particularmente porque conto as horas para voltar ao Brasil e ver duas peças – Rainhas do Orinoco, do meu amigo Gabriel Vilela, e a gata recriada por Barbara Paz. E estou considerando rever também Guerra e Paz. A versão de King Vidor com Henry Fonda (o Wyatt Earp de Ford) e Audrey Hepburn também ganhou restauro e, embora sua reputação não seja das melhores, Vidor era ‘rei’ (King) até no nome. Não creio que ele tenha edulcorado Tolstoi, mas ele com certeza o filtrou por Stendhal. Pedro/Henry Fonda atravessa o campo de batalha como Fabricio Del Dongo vive a experiência de Waterloo em A Cartuxa de Parma. Aquilo é de uma beleza que me joga diretamente no nirvana. Sempre sonhei que Luchino Visconti fizesse uma adaptação d a Cartuxa. Mil vezes imaginei como serioa a cena da fuga de Fabricio nda prisão, orquestrada por sua tia, Ginsa, a Condessa Sanseverina, com quem tem uma relação incestuosa, mas não é amor, porque esse sentimento Fabricio experiumenta com Clelia. Estrá decidido – vou rever Guerra e Paz. Como resistir a ver no cinema, em tela grande?