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Menino de ouro

Luiz Carlos Merten

25 de agosto de 2016 | 08h05

PORTO ALEGRE – Cá estou, a caminho do Festival de Gramado, que começa amanhã. Pois começa hoje outro espetáculo, maior ainda – o julgamento do impeachment de Dilma Roussef no Senado. Há curiosidade pelo teor do discurso da presidente afastada. Dilma vai ser acusadora, emocional? Ao contrário do que diz o ministro Serra, que chamou de besta e malfeito um documento da OEA denunciando o ‘golpe’ – segundo ele, não há golpe nenhum e está sendo seguido o ‘rito’ -, há controvérsia, sim, quanto a pontos essenciais. Dilma está sendo deposta pela falta de apoio popular, pela classe política que paralisou seu governo no Congresso e pelos maus resultados na economia. Nada disso dá margem legal para o impedimento, mas o rito seguiu em frente com o pretexto das pedaladas fiscais que não convenceram o homem que ia salvar o Brasil – lembram-se do ministro do STF Joaquim Barbosa na capa da revista que eu não ouso dizer o nome? – e o ex-presidente da OAB, Marcelo Lavenère, que desencadeou, há 24 anos, o processo contra Collor (e diz que agora não é a mesma coisa). Dilma é dura na queda. Acho que já escrevi aqui que César Charlone está fazendo um documentário sobre ela. Eduardo Coutinho filmou o ex-presidente Lula e a militância do PT. Espero viver para ver o filme do Charlone. Dilma acuada. Dilma que não renuncia e discursa para um plenário hostil, formado por ex-aliados, até ex-ministros, os bajuladores de plantão. Nesses momentos sinto-me defasado, anacrônico, velho. Saudades de John Ford, a grandeza dos derrotados. John Wayne, como Tom Doniphom, o homem que matou o facínora, mas deixou, por amor, que Ramson Stoddard, James Stewart, levasse o crédito e construísse, a partir daí, sua carreira política. Há, no clássico de Ford, uma cena que deveria passar em looping – sempre! – no lobby do Congresso. A lição de democracia numa escolas do Velho Oeste. assim, mostrava o grande diretor, se constrói a civilização. Leon Cakoff considerava José Serra um amigo da Mostra. Dizia que era cinéfilo. Gostaria que as lições de Ford não fossem esquecidas. Mas como não serão? Poder e dinheiro. Eis o estado do mundo. Mas Eliana Souza, pauteira do Caderno 2, me enviou ontem um e-mail que, em meio a essa m… toda, é um bálsamo para meu coração. Tanta gente querendo prejudicar Aquarius e o que parecem movimentações de bastidores para impedir que o filme tenha público e seja indicado como representante do Brasil para concorrer a uma vaga do Oscar. A Alemanha já anunciou que vai indicar Toni Erdmann, de Mare Ade, que fez sensação – até demais para o meu gosto – em Cannes. Cheguei a pensar, nos meus delírios por um mundo melhor, que efetivada a manobra do afastamento – de Aquarius, não da Dilma – seria bacana se os diretores dos filmes que pleiteiam a indicação os retirassem da disputa. Foi o que já fez, me informou a Eliana, Gabriel Mascaro, de Boi Neon. Menino de ouro.

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