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Memórias de ilhas e revoluções

Luiz Carlos Merten

28 de agosto de 2018 | 09h02

No vídeo que precede Navalha na Carne, com a homenagem a Tônia Carrero, o próprio Plínio Marcos define o teatro como a arte do ator, não do diretor nem do autor. Há controvérsia – não sei se diretores/autores, não apenas encenadores, concordam com isso e, de qualquer maneira, eles controlam os atores e, muitas vezes, nos revelam coisas de que esses últimos nem se julgariam capazes. Estou agora constrangido. Apesar do seu empenho – da homenagem a sua avó -, Luiza Thiré com certeza não é a Neusa Sueli que gostaria de ter visto, sábado, no palco do Sesc Bom Retiro. No domingo fui ao Galpão do Folias para ver Revoltar – Memórias de Ilhas e Revoluções. A euforia daqueles corpos – foliar. A montagem é, em si, um ato político, mas foi precedida de outro. A leitura de trecho de um documento que denuncia mudanças na lei de fomento do Município, que visam, as mudanças, golpear o teatro cooperativo, de base. E veio o espetáculo. Revoltar é a nova peça da Cia. Livre, encenada por Vinicius Torres Machado sobre um texto da dramaturga Dione Carlos. Adriana Monteiro, que lá estava e faz a assessoria, me apresentou o diretor, um garoto. Ilhas e revoluções – Cuba, claro. As memórias fragmentadas de uma antiga combatente, Fidelina González, que sofre de Alzheimer. Tudo no espaço cênico, que não é um palco tradicional, é fragmentado – as lembranças, a própria concepção. Cama, armário, com todo o instrumental/cabedal da infame ditadura de Fulgencio Batista, toda a cenografia se move sobre rodas, e a trilha relaciona a Internacional com ritmos caribenhos. Só quem viveu antes da revolução conheceu a delícia de viver. Dessa memória fragmentada, de antes e após a revolução – ‘Nós a traímos (a nossa revolução)?’, pergunta-se o revolucionário -, emerge uma metáfora sobre o aqui e o agora. Sobre esse Brasil que está vivendo uma grande mentira, enquanto implodem os sonhos. Imagens da revolução, slogans – Insurreição! Insurgir-se contra a secretaria, o secretário, que em nome de uma suposta pluralidade de recursos e beneficiários quer dar seu golpe de morte no teatro investigativo, participativo. O deus mercado! Não creio que o espetáculo seja 100% logrado. Seus fragmentos expõem o caos contemporâneo, nossa lucidez e nossa loucura – com ecos de Glauber, Terra em Transe -, mas fica tudo numa espécie de ‘meia’ provocação. Uma insurreição segura, pró-forma, coisa de iniciados, entre quatro paredes, como a revolução maoísta de Jean-Luc Godard em A Chinesa. A época é de crise, só da falta de esperança, dizia Albert Camus, pode nascer um sentido para a vida – e para a ação, acrescento eu. Revoltar espelha tudo isso.

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