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Melville! Sanjinés! Dois dos meus preferidos

Luiz Carlos Merten

29 de novembro de 2017 | 09h56

Não estou conseguindo dar conta de diversos eventos de cinema que rolam em São Paulo. O Mix Brasil bateu com a Semana (dos Realizadores), no Rio, e eu não consegui ver nem o Berenice Procura, de Alan Fiterman, que, para dizer a verdade, era o filme que mais me interessava. Perdi no Festival do Rio, na Mostra de São Paulo. Caraca! Está rolando – termina nesta quarta, 29 – um festival de cinema do Líbano que também tenho ignorado. Vi ontem à noite Ghadi, o Menino Anjo, de Amin Dora, sobre um garoto especial, que me pareceu bem interessante no tratamento da ‘diferença’. E isso não é tudo. Começaram ontem, 28, duas retrospectivas muito importantes. A de Jean-Pierre Meville, no Instituto Moreira Salles, e a de Jorge Sanjines, no Centro Cultural São Paulo, uma parceria com a Casa do Povo. Precursor da nouvelle vague, Melville errou muito no começo de sua carreira, como bem observa Jean Tulard no Dicionário de Cinema.; Resgataram-no o noir e o filme de gângsteres, que fizeram, de Melville, o mais americano dos cineastas franceses. Técnica de Um Delator, Os Profissionais do Crime e O Samurai. Seu cinema torna-se progressivamente mais estilizado. O Samurai oferece a Alain Delon um de seus maiores papeis e com ele Melville voltará a trabalhar em O Círculo Vermelho e Expresso para Bordeaux. Como observa Tulard, o autor abre mão do erotismo dos primeiros filmes, torna-se gélido e artificioso, em busca de uma perfeição formal que, atingida, transforma os filmes em exercícios de abstração. Grande Melville. E Sanjinés… O maior diretor da Bolívia deu voz aos índios de seu país. Foi diretor do Instituto Nacional de Cinema boliviano, mas seu foco nas questões populares tornou-o indesejável pelas autoridades. Ukamau, O Sangue do Condor, A Coragem do Povo, O Inimigo do Povo. Só os títulos dos filmes de Sanjinés apontam numa direção que não é a do liberalismo político e econômico. Índios, mineradores, seus personagens são os excluídos. Prometo voltar a Melville e a Sanjinés. Será, no caso do segundo, uma viagem no tempo, porque o conhecemos, Doris e eu, no começo dos anos 1970, quando viajávamos pela América Latina, construindo nossa identidade.