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Melos into drama

Luiz Carlos Merten

13 de junho de 2013 | 10h22

Confesso que tive grande prazer em assistir, em cinemas de arte/ensaio de Paris, nos últimos anos, a dois dramas de Vincente Minnelli. Um, que sempre achava que não era um de seus grandes filmes, foi uma descoberta – Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. O outro, era um dos e talvez ‘o’ preferido de meu amigo Jefferson Barros, um minnelliano de carteirinha – Deus Sabe Quanto Amei. Vincente Minnelli! Para as novas gerações de espectadores e cinéfilos, ele talvez seja o pai de Liza. Exagero, sei. Minnelli foi um dos grandes do musical, deixou sua marca em comédias e dramas. A Versátil está lançando uma caixa com DVDs de três filmes de Minnelli. Nenhum deles pode ser considerado um grande Minnelli, mas possuem qualidades e iluminam um dos aspectos interessantes da produção minnelliana. Putting melos into drama. Minnelli não conseguia igualar os melodramas de Douglas Sirk, seu contemporâneo, na Universal, mas os dele na Metro tinham seus atrativos, ah, se tinham. Cidade dos Desiludidos dá sequência a Assim Estava Escrito, não propriamente em termos de personagens, mas em conceito, e de novo trasta dos bastidores de Hollywood.  O astro decadente Kirk Douglas, o produtor de The Bad and the Beautiful, sai da clínica de reabilitação e vai fazer um filme em Roma. Numa cena, querendo mostrar como eles já foram bons, o produtor Edward G. Robinson mostra cenas de um filme antigo, em preto e branco, e são imagens de Assim Estava Escrito/The Bad and the Beautiful. Creio que um dos aspectos mais curiosos do filme poderá ser hoje a comparação – inevitável – com A Doce Vida, de Federico Fellini. Em Roma, Douglas e a ex-mulher, Cyd Charisse, mergulham de cabeça nas noitadas da dolce vita. Como se filma uma orgia? É muito legal comparar a de Minnelli com as de Fellini (e, mais tarde, a orgia de Glauber em Terra em Transe).  Ouso dizer que Minnelli talvez seja o menos moralista de todos, o que pode parecer surpreendente, mas como ele era bissexual isso talvez ajude a entender alguma coisa. Paixões sem Freios, The Cobweb, começa com um jovem cortrendo não num campo de centeio, mas num campo, de qualquer maneira. É o interno de um instituto psiquiátrico. O filme trata dos conflitos entre pacientes e médicos. Uma troca de cortina vira metáfora da tênue linha que separa a loucura da dita normalidade. Se Minnelli alguma vez teorizou sobre seu cinema, foi neste filme. Estão nele o vermelho e o verde – remember Quatro Cavaleiros – e o tema do artista, que trabalha com o imaginário e, por isso, só pode ser ‘louco’, e os médicos presos ao real (e são mais loucos ainda, mas não se dão conta). O que mais gosto nesta série de três é Herança da Carne, Home from the Hill. George Peppard e George Hamilton são meios-irmãos, filhos de Robert Mitchum. O primeiro é bastardo e o filme expõe os ‘defeitos’ (vícios) da repressora sociedade sulista. Peppard é um bruto putanheiro como o pai, Hamilton foi criado pela mãe (Eleanor Parker) e é ‘sensível’. A sensibilidade é sempre a perdição dos heróis de Minnelli. Confronta-os com suas origens e com o mundo. A cena-chave é a da caça ao javali. Minnelli dizia que orquestrou Herança da Carne como uma ópera – a tensão dramática vai num crescendo. Na época, o filme foi considerado menos que um fracasso – nada. Com o tempo, a cena da caçada virou motivo de estudo e admiração, e hoje é reconhecida como a representação talvez mais perfeita do ‘pathos’ no drama (na tragédia?) minnelliana. Como bom melodrama, tudo se passa em família. O título original vem de um poema de Robert Louis Stevenson, que mais ou menos define o personagem de Mitchum.  ‘Aqui ele repousa, como sempre quis/O marinheiro volta para casa, retornando do mar/E caçador se instala, no regresso à colina.’ Os dois irmãos, malgrado as diferenças de temperamentos, se apoiam. A família não se une, mas o que resta dela resolve as diferenças. E Eleanor Parker, como sempre, é aquele refinamento. Pensando bem, Herança da Carne é, sim, um grande Minnelli.

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