As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Melhores de p… nenhuma

Luiz Carlos Merten

01 Maio 2017 | 01h05

Estou em choque. Tenho usado a ideia tantas vezes para expressar maravilhamento – existe a palavra? – que, dessa vez, é bom esclarecer logo que o sentido é negativo. Havia perdido o vencedor da competição internacional do É Tudo Verdade. Fui ver agora Comunhão, de Anna Zamecka. Aquele júri parecia tão sério, outorgando os prêmios. Deviam estar loucos, ou louco estou eu. O melhor curta, O Cuidador, sobre um velho médico generalista holandês, tem um personagem interessante, mas não é melhor de coisa nenhuma. Mesmo assim… Comunhão narra a história de uma família disfuncional, vista pelo ângulo da garota que dá duro tentando unir todas aquelas pessoas – o irmão autista, que vai fazer a comunhão, o pai bêbado e a mãe trânsfuga. O filme é obviamente encenado – 99%. Numa cena, o garoto autista, na banheira, comenta que a realidade imita a ficção. Não, querido, o documentário imita a ficção. Passamos o jantar inteiro, Dib Carneiro e eu, discutindo o filme como a obra de ficção que é, mesmo com personagens reais. A dúvida – o filme é mal encenado, ou os ‘atores’ são ruins? É impossível ter qualquer tipo de empatia pela garota. Pelo garoto, talvez – eu diria que sim. A mãe entra no filme olhando com desconfiança para a câmera. Seu mal-estar é flagrante e quando ela dá no pé – de novo -, pensei comigo que já estava indo tarde. Lá vou eu polemizar – será que o júri viu, viu mesmo, Perón, Meu Pai e Eu, de Blás Eloy Martínez, que concorria em duas competições – latina e internacional -, e não ganhou nenhuma? Foram, para mim, os dois melhores filmes do 22.º É Tudo Verdade. O argentino e o brasileiro, Cidades Fantasmas – que venceu na sua categoria. No começo dos anos 1970, Juan Domingo Perón estava no exílio, na Espanha, quando o pai do diretor, o jornalista e escritor Tomás Eloy Martinez, realizou com ele uma mítica entrevista que alimentou sua ficção. Seus pais se separaram, o viejo morreu e Eloy tenta agora recuperá-lo por meio do documentário. Desde menino, ele ouvia as fitas, e a voz de Perón. Foi preciso que o pai morresse para que Eloy, recuperando as fitas, fizesse um duplo trabalho de escavação – no material de arquivo e na memória. Tomás e Perón falam, mas há uma terceira voz e é a do bruxo Lopez Rega, que através de Maria Estela ‘Isabelita’, entrou na vida do ‘general’ e virou a eminência parda quando ele voltou à Argentina nos braços do povo, para ser reeleito presidente e morrer, deixando a viúva no lugar. Lopez Rega foi o Rasputim argentino. Uma tragédia latino-americana. Como ficção, digna de realismo fantástico. Na realidade, uma m… Tomás, por interpelar Lopez Rega, virou seu desafeto e, quando ele consolidou o poder, sua vítima. Perón, Meu Pai e Eu tem camadas. Pai e filho, a grande História, a miséria moral dos mitos. Estamos vivendo um pouco disso no Brasil, não? Eloy faz boa – ótima – ficção dentro do documentário. Como o júri não percebeu? Estou pasmo, em choque. E ah, sim, de certa forma Comunhão já foi feito como ficção – Gilbert Grape, Aprendiz de Sonhador, de Lasse Hallstrom.