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Melhor idade?

Luiz Carlos Merten

18 de junho de 2016 | 08h46

Por conta das minhas viagens – Recife, depois Cannes, depois Paris, depois Rio -, andei perdendo lançamentos importantes. Queria rever Exilados do Vulcão, que é o único filme de Paula Gaitán no qual não consegui ‘entrar’, não vi os documentários Os Outros, de Sandra Werneck, e aquele outro, São Sebastião do Rio, sobre a cidade chamada de maravilhosa como uma construção utópica. Quando me dei conta, A Despedida, de Marcelo Galvão, pelo qual tive uma epifania quando o vi em Gramado, em 2014, já estava em cartaz. Resgato o filme na edição de domingo do Caderno 2. O cinema possui grandes filmes sobre a velhice, a tal terceira idade – melhor idade, nem f… Umberto D, de Vittorio De Sica, investe no social, Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, é aquela odisseia interior do velho Professor Isak Borg, o genial Victor Sjostrom, que Bergman venerava como diretor e transformou em ator (inesquecível). Marcelo Galvão faz história nesse território da terceira idade ao abordar o tema tabu da sexualidade. Almirante, o personagem de Nelson Xavier, pode estar nas últimas, mas não perdeu o tesão nem o desejo de satisfazer uma fêmea como Juliana Paes. O problema, como ele diz, não é ficar velho – é ter sido jovem. Mas enquanto tiver língua e dedo, Almirante, mesmo que a espada tenha perdido o fio, segue guerreiro. Tenho até medo de rever A Despedida, de tal maneira Juliana e Nelson Xavier ficaram gravados no meu imaginário. Ele já estava lá, encastelado, por seus papeis com Ruy Guerra (Os Fuzis e A Queda) e pela Rainha Diaba, de Antônio Carlos Fontoura. Ela, desglamourizada, humaniza-se sem perder nada da (fantástica) beleza. Citei um monte de lançamentos do cinema brasileiro. Como estarão indo de bilheteria? Fui ver Vampiro 40 Graus, de outro Marcelo, o Santiago, e era o único (o único!) espectador na sala. De nada adiantou a capa que a concorrência deu ao filme, que terminou não me interessando nem um pouco, mas permaneci até o fim, tentando ver a transcendência (eu, hein?) daquele vampiro carioca. Já houve um cinema brasileiro de terror, O Segredo da Múmia e As Sete Gatinhas, nos quais Ivan Cardoso vasculhava os códigos de gênero – o filme B hollywoodiano – com as ferramentas do (neo)concretismo de seus amigos Campos (os irmãos Augusto e Haroldo) e Décio Pignatari. Aquilo era ser sofisticado num gênero popular, já a ficção científica de Fausto Fawcett… Transgressão de araque, credo. Gostei de Trago Comigo, com o qual Tata Amaral retorna ao tema da memória da ditadura, e agora refletindo sobre a delação. Em 2009, quando ela fez seu filme, o sentido da delação era um, hoje, no País da Lava-Jato, virou outro. Com as delações premiadas, ‘eles’ já conseguiram o que queriam, mas elas continuam e já enxovalharam tanto os salvadores da pátria que adorei ver ontem na capa dos principais jornais o pedido para que os juízes (o ‘Catão’) tenham ‘sensibilidade’ e parem com isso. Seria cômico, senão fosse trágico.

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