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Melhor é sempre um conceito relativo

Luiz Carlos Merten

23 de agosto de 2013 | 10h01

Havia visto uma edição da revista Film Comment na banca do Conjunto Nacional, em plena Paulista. Pela capa – o cartaz do filme de Alain Guiraudie – deu para ver que o assunto dominante devia ser L’Inconnu du Lac. Em Nova York, encontrei o número mais recente da revista, com Lindsay Lohan na capa. Trouble every day. Lindsay e James Deen em Paul Schrader’s The Canyons. Deus que fiquei louco para ver o filme! Schrader já havia adentrado o universo pornô em Hardcore, o Submundo do Sexo, em que George C. Scott faz um pai que busca a filha que pode ter sido abduzida pela chamada indústria ‘adulta’. Agora, o astro é pornô, James Deen, mas o filme é sobre o vazio moral contemporâneo, the modernity moral emptiness, e que melhor lugar para falar sobre isso senão Los Angeles,. e Hollywood? Mas a questão é que Film Comment de july/august traz interessantes discussões sobre Cannes, e um quadro de cotações dos principais filmes do festival. Kleber Mendonça Filho é um dos que votam e eu quase sempre fechei com ele, exceto no caso de Paolo Sorrentino, La Gran Bellezza, que ele odeia (e eu não). Mas o que mais gostei foi uma simples observação de Kent Jones na abertura de seu texto sobre Le Dernier des Injustes,. de Claude Lanzmasnn, que não li. Ele diz que Cannes é o melhor lugar do mundo para se ver filmes – pela quantidade e diversidade -,mas também o pior lugar para se refletir sobre eles. De novo a quantidade, a diversidade e a urgência – pressão – de emitir opiniões para jornais, revistas, rádios, TVs… É verdade. Tenho refletido muito sobre os filmes de Cannes, e penso que nós, jornalistas, temos um privilégio que o júri não tem. Nós podemos ver e pontuar filmes de várias seleções, não só da competição, e por mais que goste de A Vida de Adele, que restabeleceu minha confiança em Abdellatif Kechiche, após a sua não tão boa Vênus, cada vez me convenço mais que Jia Zhang-ke deveria ter levado a Palma por A Touch of Sin e que o melhor filme de todo o festival foi o de Guiraudie, em Um Certain Regard. Curioso é que o que sedimentou essa minha minha convicção foi Tatuagem, de Hilton Lacerda, que vi em Gramado, e do qual não gostei tanto (mas que ficou comigo). Quando virem O Desconhecido do Lago, vocês vão perceber as similaridades e meus por quês. Vou fazer uma confissão, espero que não seja indiscrição. Havia sido convidado para participar do júri em Gramado. Declinei porque me interessava mais participar dos debater com colegas e autores, fazer a cobertura para o Estado etc. Mas não posso deixar de pensar que, se tivesse sido júri, o resultado talvez fosse outro, porque teria infernizado a vida de todo o mundo. A Bruta Flor do Querer talvez tivesse ganhado mais que melhor diretor, os garotos de Tatuagem com certeza teriam sido melhores coadjuvantes, a menos que passassem sobre meu cadáver. O que quero dizer com isso é que nem estou polemizando com as escolhas do júri gramadense, por mais estapafúrdias que, às vezes, possam me ter parecido. O que  quero dizer é que não existe essa coisa de ‘melhor’. É tudo muito subjetivo. As escolhas de juris nem sempre refletem o melhor. É sempre um grupo de pessoas que premia (com honestidade e critério), mas outro grupo de pessoas poderia fazer outras escolhas (também com honestidade e critério). Todo esse blablablá é para dizer que hoje, domingo e na terça-feira, no Festival de Curtas de São Paulo, você poderá ver o melhor filme de Gramado em 2013, independentemente de formato. Para mim, o melhor de toldo o festival foi o curta Sanã, de Marcos Pimentel, e até onde sei, depois de procurar rapidinho na internet – estava fora – o filme não ganhou nada. Como? Nada, nadica de nada. Vejam Sanã e depois me digam se não tenho razão (mas discordem, se não gostarem).. Não vou nem dizer do que trata. Vejam, e surpreendam-se.

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