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Melhor de tudo é ter Fernanda por perto

Luiz Carlos Merten

06 de outubro de 2019 | 22h45

Minha vida nunca fui fácil. Não tenho outra para comparar, e também não estou querendo me vitimizar. Conheci dor, violência, humilhação, discriminação, traição. Algumas pessoas me diziam uma coisa e faziam outra. Tento entender por quê. Creio, apesar de tudo, que o saldo é positivo. Tento ser compassivo, não ser rancoroso. Carlos Alberto Mattos me fez uma dedicatória linda no livro sobre Eduardo Coutinho, na semana que passou. Compartilho-a com vocês. “Melhor do que te ler é te ter por perto.” Uau! Conversei, no outro dia, quase uma hora por telefone com Fernanda Montenegro, sobre os filmes dela, e Fernanda, que me contempla com seu carinho, me disse algo parecido, com outras palavras. Essa mulher, essa bruxa que tem o coração do tamanho do Brasil, me faz sentir relevante. Ave, Fernanda! Fui agora à tarde na lecture de Fernanda no Theatro Municipal. Encontrei amigos do teatro e cinema, pessoas a quem não via há tempos. Foi gratificante, mas o melhor foi ter estado lá. Meninos e meninas, eu vi. Fernanda leu um trecho de sua autobiografia, conversou com Marta Góes – que foi minha editora no Caderno 2 -, leu mais um trecho, cantou. Tive uma epifania, no sentido mais amplo e irrestrito do termo. Uma compreensão de mim mesmo e do mundo. Essa sensação de estar captando algo profundo, visceral. O Professor Isak Borg deve ter sentido isso no desfecho de Morangos Silvestres – essa sensação de estar decifrando o enigma da própria vida, que Ingmar Bergman passa genialmente. Para chegar ao Theatro Municipal desci a Xavier de Toledo, ocupada por todas aquelas barracas de livros e editoras. A Virada do Livro, o Festival Mário de Andrade. Fernanda no palco e adentraram pelo corredor principal do teatro aqueles homens de branco. Zé Celso e o próprio Mário, ou Paschoal da Conceição, que já incorporou tanto o personagem que não dá mais para separar um do outro. Não apenas o teatro, a arte. A vida como resistência. Foi um privilégio ter estado lá, na tarde de hoje. E por mais que o sentimento tenha sido de euforia, de plenitude – eu estive lá, como estive na Praça da Matriz, em Porto Alegre, na Campanha da Legalidade, e na Esquina Democrática, nas Diretas-Já -, me bateu uma tristeza. Gostaria que o momento tivesse sido compartilhado. Aplaudindo Fernanda, que ia embora – 90 anos! -, decifrei-me. Tenho de parar de ser duro comigo. Quem sabe – apaixonar-me? Fernanda, que já foi a Compadecida, há de compreender. Aplaudida de pé, marcando posição contra a barbárie, ela me lembrou a Passionária em O Tempo e o Vento, o monumento literário de Erico Verissimo. Quem é, ou são os sórdidos dessa história? Vão passar!

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