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Mazursky como cronista social

Luiz Carlos Merten

02 de julho de 2014 | 00h30

Jean Tulard certamente não é generoso com Paul Mazursky em seu Dicionário de Cinema. Até aí, tudo bem – não se pode cobrar generosidade de ninguém, e muito menos de um crítico, na avaliação do trabalho de um artista. O problema, e isso sim me parece um problema, é que análise de Tulard não me parece acurada. Ele diz que Mazursky quer ser o cronista da classe média norte-americana, mas lhe faltam vigor e uma certa crueldade para ser certeiro. Tulard considera os filmes de Mazursky aborrecidos. Eu, não. Mazursky morreu ontem de parada cardíaca em Los Angeles, aos 84 anos. O anúncio foi feito hoje pela família. Confesso que tive hoje um daqueles dias corridos. Fui a uma cabine pela manhã – ver Bistrô Romântico, que me encantou -, passei em casa, almocei e corri para o jornal, onde me esperava um monte de matérias para a edição de amanhã do Caderno 2. E ainda havia os jogos, um texto que redigi para o portal do Estado, sobre os dez anos da morte de Marlon Brando. Entre a capa – a visita ao set de Pequeno Dicionário Amoroso 2 – e uma página interna – outra visita, agora ao Teatro Pequeno Ato, para assistir a trechos da montagem de A Vida dos Homens Infames, de Michel Foucault, por Cristiano Burlan -, tive de enterrar o Mazursky. Ator de Richard Brooks – integrava com Sidney Poitier e Vic Morrow a classe de baderneiros que o professor Glenn Ford colocava nos eixos em Sementes da Violência -, Mazursky estreou na direção em 1969, com um filme simpático e que deu o que falar, por sua abordagem do sexo. Amigos, Natalie Wood e Robert Culp, Elliott Gould e Dyan Cannon brincam de troca de casais, e isso numa época em que marido e mulher recém começavam a dormir na mesma cama, na produção de Hollywood. Pelos anos seguintes, como diretor e roteirista, Mazursky realmente se transformou no cronista, mais que da classe média, das transformações ocorridas na sociedade norte-americana. Falta de vigor e crueldade? Tulard não deve ter visto Inimigos, Uma História de Amor, que Mazursky adaptou de Isaac Beshevis Singer, sobre a herança maldita do nazismo no imaginário judeu. Nem Moscou em Nova York, que expressa seu desencanto com o ‘paraíso’ americano. Para mim, e sendo um artista de Hollywood., ele revelou sempre uma sensibilidade europeia. Emulou Ingmar Bergman – Harry, o Amigo de Tonto, que deu o Oscar para Art Carney, é o seu Morangos Silvestres e Cenas num Shopping, com Woody Allen e Bette Midler, tem tudo a ver com Cenas de Um Casamento. O próprio Uma Mulher Descasada, com Jill Claybourgh, que tanta sensação fez entre plateias feministas por volta de 1975, parece um daqueles estudos bergmanianos sobre a natureza das mulheres. Cinema francês? Um Vagabundo na Alta Roda bebe na fonte de Jean Renoir (Boudu Salvo das Águas), com uma pitada de Pier-Paolo Pasolini (Nick Nolte desintegra a família de Bette Midler – de novo ela – como Terence Stamp em Teorema). François Truffaut? Willie e Phil é claramente a versão norte-americana de Jules e Jim. Tudo isso é bom, é válido, mas o ‘meu’ Mazursky é, sempre foi, Próxima Parada: Bairro Boêmio. O filme autobiográfico mostra como sujeito de 30 anos deixa a casa da mãe, no Brooklyn, para tentar seguir a carreira de ator em Greenwich Village, É o centro da boemia de Nova York e Lenny Baker, que faz Larry Lipinski, o protagonista, se envolve com um bando de libertários que desagrada sua mãe judia. Tudo o que Shelley Winters quer fazer no filme é com que Larry/Lenny se sinta culpado. Mães judias são ótimas nesse quesito, mas Shelley tem uma grande cena, em que ouve ópera no apartamento do filho e a gente percebe como, no fundo, ela é sensível. É claro que tem um gay enrustido, ou com dificuldade para se aceitar, senão não seria sobre gente cujo comportamento (em 1950!) desafia códigos estabelecidos. Mas o tema, o verdadeiro, é a dificuldade de Larry para se impor como ator. Seu jeito cômico o impede de criar personagens ‘sérios’. Christopher Walken, Antônio Fargas, Lou Jacobi, Lois Smith e Jeff Goldblum estão no elenco  O ritmo é marcado pelas tentativas de suicídio do mais depressivo integrante do grupo – adivinhem quem. Ele tenta se matar, os amigos chegam a tempo de salvá-lo, tudo vira festa, até o momento em que o suicida atinge seu objetivo e o humor vira drama, senão tragédia. Mazursky faz essa transição com muita beleza e eficiência. Faz tempo que não vejo Bairro Boêmio, mas duvido que não seja essa obra viva no meu inconsciente. Mazursky, para mim, era melhor do que Jean Tulard o descreve em seu dicionário. Próxima parada para ele – heaven? Pois o inferno nosso homem pintou muitas vezes, aqui mesmo, na Terra.

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